A VIOLÊNCIA URBANA EM NÚMEROS
O aumento da violência acompanha passo a passo o aprofundamento das desigualdades sociais. Não são raras as manchetes dos grandes jornais destacando crimes violentos em que são vítimas, principalmente, as camadas mais pobres da população. Muito embora esses mesmos jornais não vinculem a violência como efeito de um sistema econômico, que prima pela desigualdade social, é patente, hoje, que o desemprego galopante, a falta de perspectiva dos jovens com relação ao trabalho e à vida, a violência policial, o descrédito com a política oficial, são alguns dos instrumentos propulsores dessa violência.
De janeiro a setembro de 1998, uma pessoa foi assassinada no estado de São Paulo a cada 31 minutos. Nos 273 dias que compreenderam esse período, a polícia registrou 12.564 homicídios (46,02 por dia ou 1,92 por hora). Sem dúvida um número bastante assustador. Naquele mesmo período foram registrados 1.162.222 delitos em todo o estado, o que mostra, em média, um crime a cada 20 segundos (dados coletados no Jornal Folha de São Paulo, 29.10.98, caderno 3, pag. 3).
Na grande São Paulo o número de chacinas aumentou 90% em 1998 em relação ao ano de 97. Foram 89 casos, com 308 mortos, enquanto no ano anterior houve 47 casos e 162 mortos, de acordo com a mesma Folha, de 14 de janeiro deste ano, Caderno 3, pag. 3.
Em Salvador, a terceira maior cidade do país, segundo dados do Fórum Comunitário de Combate à Violência, no ano de 1997 os homicídios representaram 49,9% das mortes violentas, representando 787 casos, o que equivale a dizer dois assassinatos a cada dia do ano. O maior número de vítimas da violência em Salvador está na população jovem: 63,1% dos casos tinham entre 15 e 39 anos, ou seja em uma faixa etária economicamente ativa. Um dado importante levantado pelo estudo é de que apenas 31 casos (2%) das vítimas não possuíam ocupação, desmistificando assim a idéia de que os alvos das mortes violentas são desocupados e vivem à margem da sociedade.
Já no dossiê elaborado pela Comissão de Justiça e Paz, da Arquidiocese de Salvador e Associação de Advogados dos Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia, a média de assassinatos a cada dia do ano de 1998 subiu para três, sendo 12 nos finais de semana, o que faz a Grande Salvador oscilar entre a 3ª e a 5ª região metropolitana mais violenta do pais. É importante salientar que a Bahia detém o sexto Produto Interno Bruto (PIB) do país, porém reúne mais de um milhão de pessoas em estado de pobreza só na Região Metropolitana de Salvador (RMS).
No mesmo dossiê consta que entre 1996 e 1997, cerca de 300 pessoas foram assassinadas na RMS por grupos de extermínio integrados por policiais militares e/ou civis. Já a ação de policiais em serviço acrescentou mais 238 homicídios no mesmo período.
A Folha de São Paulo, em 13.12.98 (cad. 3. Pag.2), publicou um quadro sobre a atuação das polícias dos estados de Rio de Janeiro e São Paulo, no qual se coletavam os seguintes dados no período de fevereiro a outubro do mesmo ano: no Rio foram mortos 595 civis por policiais em serviço, enquanto que, de janeiro a julho de 1998, morreram 59 policiais. Em São Paulo morreram 300 civis de janeiro a outubro/98, para 13 policiais entre janeiro e julho/98.
Este breve trabalho detém-se sobre a violência urbana, não abrangendo, portanto, a área rural, onde acontecem também inúmeros assassinatos, e tampouco abrange outras tantas violências cometidas às populações que, por não terem onde morar e trabalhar, perambulam por grandes e pequenas cidades deste imenso país. Só para citar uma dessas outras violências, o jornal A Tarde, de 04.02.99, pag. 14, noticiou uma prática que está se tornando comum, que é a "exportação" de mendigos, acontecida na cidade de Corumbá (MS), onde o prefeito local "exportou" 27 mendigos para o interior de São Paulo, com o objetivo de "limpar" a cidade, no que teve o apoio de vereadores e comerciantes daquela localidade.
Para concluir, duas observações: primeiro, casos como estes acontecem em todo o mundo, não só no Brasil; segundo, acontece no Brasil e em todo o mundo porque o sistema social que os produz e reproduz, o sistema capitalista