A GUERRA DA IUGOSLÁVIA: PANO DE FUNDO E DESDOBRAMENTOS
A moldura geral do imperialismo atual: pano de fundo da guerra nos Bálcãs
A guerra da Iugoslávia constitui um momento da situação de crise do imperialismo mundial, neste final de século, momento este no qual se articulam alguns processos básicos, que são: de um lado, a execução de uma estratégia de seu elo mais forte o segmento norte-americano com vistas a fazer valer a sua hegemonia no mesmo instante em que os demais segmentos do imperialismo mundial não conseguem reunir meios através dos quais possam contrabalançar o poderio econômico, político e militar dos Estados Unidos; de outro, uma grande esfera da existência imperialista entra em crise, dissolve sua moldura geral (a ex-URSS) e, abandonando a forma de reprodução do capital, sob a tutela do Estado e de uma burocracia de Estado, ingressa na forma de capitalismo privado; de mais outro, presencia-se uma série de crises cíclicas de superprodução e correlatas crises financeiras, que se sucederam ao longo ciclo de boom que vai dos finais da Segunda Guerra até a década de 70 crises estas cada vez mais próximas, mais profundas e solidárias à escala mundial; por último, um novo, mais agudo, mais completo e mais universal processo de mundialização do capital, a que se costuma chamar de "globalização" e que demarca a finalização da dominação do modo capitalista de produção sobre todos os demais modos e resquícios de modos de produção no planeta. Estes momentos se relacionam mutuamente, dando como resultado um processo mundial só, que tem como resultante a crise do imperialismo nos dias de hoje e dentro do qual se origina não só o "problema iugoslavo" como muitos outros conflitos que têm existido e que estão existindo nos diversos continentes na etapa atual. Vejamos como explicar a guerra nos Bálcãs a partir da reunião destas quatro ordens de fenômenos imperialistas centrais.
Antecedentes próximos: saldos da Segunda Guerra Mundial
Encerrada a Segunda Guerra Mundial, a economia dos EUA estava empanturrada de saldos em seu favor. Os EUA acumularam muito capital-dinheiro vendendo armas para a guerra e acumularam ainda mais durante os esforços de reconstrução dos países vencedores e vencidos devastados pela guerra. A economia norte-americana, no entanto, permanecia intacta. Depois do tratado de Breton Woods, quando concertaram, sob sua liderança, a nova ordem econômico-financeira mundial, os EUA puderam dividir a liderança mundial, agora sob um sistema bipolar de poderio e influência, com a URSS, ex-aliada na guerra contra o nazi-fascismo. Estava iniciada a "Guerra Fria". Não tardou muito a recuperação do Japão e da Alemanha, que se inclinaram a uma disputa de hegemonia com os EUA dentro do chamado bloco ocidental. Com a crise e a desarticulação do chamado "bloco socialista" liderado pela URSS na verdade um bloco de sociedades nas quais a relação-capital continuou a reproduzir-se sob a forma de capitalismo de Estado , os EUA se viram na iminência de perder, pelo menos em certa medida, a sua franca hegemonia para países, como a Alemanha e o Japão, que se desenvolviam a ritmo acelerado. O perigo aumentava à medida que a Europa se aglutinava sob a forma da Comunidade Européia e que outros "blocos" surgiam no mundo, inclusive na Ásia.
A estratégia de hegemonia norte-americana no contexto do imperialismo mundial e o problema iugoslavo
Aos EUA não restou outra alternativa senão a de viabilizar uma estratégia de afirmação e confirmação de sua hegemonia, agora de longe estabelecida, entre as nações imperialistas do mundo fato facilitado pela situação de crise na qual mergulhou o Japão e as dificuldades enfrentadas pela Alemanha com a reunificação durante a presente década de 90. Esta estratégia dá aos EUA, segundo sua própria ótica, o direito de colocar-se como "polícia global do planeta", direito que os EUA se atribuem e pelo qual podem dar demonstrações inquestionáveis de força e prepotência brutal ao perpetrarem as mais ignóbeis invasões de países, tidos ou tomados como "inimigos da paz e dos direitos universais dos povos", tudo em nome de uma pretensa "estabilidade da ordem universal" do capital, seria bom não esquecer. Este é um dos ângulos fundamentais pelos quais pode ser apreciada a invasão da Iugoslávia, "em nome da OTAN", sem licença prévia da inócua ONU e de seu Conselho de Segurança. Pelo mesmo ângulo de análise pôde ser analisada a invasão do Iraque, há alguns anos, ou qualquer outra invasão, ou série de invasões, que venham a ocorrer contra nações que, a juízo do Pentágono e de seus aliados, estejam pondo em risco a referida ordem mundial desenhada pelos critérios do capital monopolista mundial, o norte-americano antes e acima de qualquer outro. O imperialismo é uma totalidade, mas os demais elos da cadeia imperialista França, Inglaterra, Japão, etc. ou se vêm impotentes ou, como é flagrante no caso da Inglaterra, em posição secundária em relação aos EUA. Este estado de poderio relativo não se dá por acaso, pois é produto da situação de desigualdade econômica entre os países-elos da cadeia imperialista. Nesta cadeia, os EUA trabalham para manter uma situação de unipolaridade com base na sua hegemonia econômica, política e militar. Desta vez é a Iugoslávia quem está pagando a conta.
Uma outra causa imperialista da guerra na Iugoslávia
Um outro grande fato que explica o que está acontecendo na Iugoslávia é a crise e desarticulação da outra banda do imperialismo neste final de século: a crise do capitalismo de Estado, de que resultou a dissolução da URSS e do chamado "socialismo real". Depois da Revolução de 1917, das sucessivas intervenções do Exército Vermelho em vários países europeus e de revoluções de países como China, Coréia do Norte, Vietname, Albânia, Cuba, etc., por uma série de motivos altamente relevantes, mas que não podem ser tratados nos limites deste artigo, o socialismo ainda não pôde aparecer à luz do dia. No lugar de sociedades efetivamente socialistas, o que se viu, como demonstrado por Charles Bettelheim e muitos outros autores, foi a reiteração do mundo do capital sob o disfarce da propriedade estatal. Ocorre que este sistema, lastreado na forma capitalismo de Estado, acabou por revelar sua indisfarçável impotência estrutural, que culminou com uma crise sistêmica à qual vem sucedendo toda uma desarticulação no dorso da qual todas aquelas sociedades vêm-se reconvertendo em capitalismo privado.
Na revoada da reconversão, as burguesias daqueles países, encasteladas até então como castas burocráticas perpétuas nos seus respectivos estados, entraram em conflitos que se multiplicavam à medida que se convertiam ou tendiam a se converter em burguesias privadas (inclusive associando-se às burguesias imperialistas ocidentais) e que disputavam as maiores fatias na subdivisão dos estados, das economias, dos despojos e das esferas de influência. Assim como a Rússia constituía a maior parcela da ex-URSS e, portanto, a sua burguesia de estado formava a maior parcela da burguesia de Estado da ex-URSS, também na Iugoslávia a burguesia sérvia constituía a maioria e reunia em suas mãos o maior poderio à testa da economia e do Estado.
O que era a Iugoslávia e como se deu sua desintegração
A Iugoslávia formava, até 1991, uma federação de "repúblicas socialistas". A partir daquele ano, com a crise do chamado "socialismo real", a unidade iugoslava começou a rachar com a independência das unidades federadas: Croácia, Eslovênia e Macedônia, em 1991, e Bósnia-Herzegovina, no ano seguinte. Restava da ex-Iugoslávia, agora rebatizada de República Federal da Iugoslávia, apenas duas das seis repúblicas anteriores, a Sérvia e Montenegro, acompanhada de algumas localidades menores, entre as quais a província de Kosovo. Esta província, como se sabe, encontra-se no centro da crise atual, vez que, povoada basicamente por albaneses, também luta pela sua independência (na atual Sérvia, cerca de 67% da população é formada de sérvios e 21% de albaneses). Os EUA, o Conselho de Segurança da ONU e a OTAN sempre estiveram, desde praticamente o início dos conflitos naquele trecho dos Bálcãs, como "guardiães da ordem" e dos "direitos humanos" que estariam sendo desrespeitados pela nova República Federal da Iugoslávia. Tudo segue na mesma batida neste atual momento em que mais uma área, desta vez Kosovo, tenta separar-se da atual Iugoslávia.
A ação das burguesias iugoslavas no momento da desintegração e a situação de Kosovo
Na hora da divisão, portanto, do butim, as burguesias maiores demonstraram como seguem demonstrando não ter a menor pretensão de ceder os maiores nacos. É este exatamente o caso da burguesia sérvia, representada por Slobodan Milosevic, que tenta, a todo custo, evitar que mais um pedaço da ex-Iugoslávia se desprenda do que restou da antiga Iugoslávia e enfraqueça, desta maneira, a hegemonia mantida pelos sérvios. Aliás, num artigo publicado em 1998, o Sr. David Dj. Dasic, embaixador da Iugoslávia no Brasil, deixa muito claro porque Milosevic e sua burguesia de Estado (Sérvia) não deseja largar o "osso" kosovar: "Historicamente e politicamente, Kosovo, um território de 10.887km2, pouco menor que dois Distritos Federais, com uma riqueza natural abundante, é um assunto extremamente complexo". É, de fato, muito "complexo" para uma burguesia como a da Sérvia, abrir mão de um território de "riqueza natural abundante". Nos casos em que esses conflitos se deram pela via armada e este é o caso da Iugoslávia , tais conflitos foram e seguem sendo ideologicamente apresentados ao mundo como conflitos de natureza "étnica". A luta de classes, fundamentada por interesses materiais de classes, era e segue sendo dada ao mundo como uma guerra de caráter exclusivamente étnico e religioso uma farsa a mais.
Agora, porém, a URSS a outra polícia mundial , já não existe, e a Rússia, fragmentada e em crise profunda, já não tem as condições que a antiga URSS reunia outrora para intervir na Iugoslávia e cobrar, como fizera na Hungria e na Tchecolosváquia, a coesão do sistema a outra banda do imperialismo mundial. A lacuna passou a ser ocupada pela outra "polícia do mundo", os EUA, a única potência imperialista em condições de por em prática, no momento, uma clara estratégia de hegemonia planetária. Os conflitos inter-capitalistas da Iugoslávia entre as burguesias sérvia, croata, kosovar, etc.mmestão sendo apenas um pretexto que entra na estratégia dos EUA como uma luva. A intervenção só precisava ser "justificada". E isso tem sido feito.
Uma terceira causa: acionar uma economia de guerra como antídoto à crise econômica dos países imperialistas maiores
O terceiro fato de destaque capaz de lançar luzes sobre a guerra da Iugoslávia é de caráter econômico e, também aqui, do ponto de vista do imperialismo mundial, em primeiríssimo plano o norte-americano. A economia imperialista vem perdendo dinamismo desde a década de 60. Se, naquela década, os países do OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) ostentavam uma taxa média de crescimento do produto de cerca de 5,3%, nos anos 70 esta taxa caiu para 3,5% e no período 80-90 caiu de novo para cerca de 2%. A crise de superprodução pegou em cheio o Japão e deverá apanhar, como anuncia o Sr. Alan Greenspan, Presidente do FED (Banco Central dos EUA), os EUA a curto prazo.
Numa tal perspectiva, nada mais apropriado para as economias imperialistas do que um adicional exercício de guerra, pois, como é sabido, provocar ou intensificar conflitos bélicos constitui um excelente expediente para o ativamento, no curto e médio prazos, de uma indústria de artefatos bélicos que não só se encontra em crise, ostentando elevada margem de capacidade ociosa, como se trata de uma indústria capaz de levar a reboque toda uma cadeia produtiva formada de amplos setores da economia que acompanhariam a expansão da produção de armas.
O negócio de artefatos bélicos é tão importante que só nos EUA a produção de armas girava, em 1997, em torno dos 740 bilhões de dólares. Os EUA detinham, então, 60% da produção de armas no mundo, sendo que os 40% restantes estariam e continuam nas mãos dos demais grupos e nações imperialistas, como a Inglaterra, que tanto insiste na intervenção da OTAN na Iugoslávia. O Estado norte-americano, principal ganhador na guerra dos Bálcãs, tem destinado centenas de milhões de dólares, do orçamento, para a reposição de armas já gastas no conflito e para ampliação da produção bélica. Os projetos daí derivados "reforçam ainda mais as perspectivas de lucros de empresas como a Raytheon, Boeing e Lockheed, fornecedoras de armas e de aviões que passaram por um difícil processo de fusões e de falências na última década". No sistema capitalista é assim: se poderosas empresas produtoras de armamentos estão em crise, é também possível promover umas guerras com o objetivo de salvar a taxa de lucro dos capitalistas que produzem artefatos para a matança de populações inteiras. No caso das grandes empresas imperialistas, elas articulam lobbyes (quadrilhas muito poderosas) junto ao congresso e governo de seus países, com o objetivo de multiplicarem essas guerras que vão consumir seus produtos, equipamentos bélicos. No caso norte-americano, neste momento, as ditas empresas chegam a fazer "promoções", como descontos nas vendas de armas ao Estado (a Boeing acaba de oferecer descontos de até 15% nas suas vendas de armas...).
Com base nessas características e na atual situação da produção de armas, os governos imperialistas não podem deixar de criar e recriar todas as condições para que a sua economia de guerra se coloque como um expediente de protelação da recessão. O problema que disso resulta fica para o futuro, como está bem dito aqui nestas palavras de Ernest Mandel: "... durante todo o período pós-guerra, desde 1945, a produção permanente de armas não se tornou apenas uma das soluções mais importantes do problema do capital excedente, e, principalmente, constituiu-se num poderoso estímulo para a aceleração da inovação tecnológica. (...) Mas a questão que surge agora é saber se a longo prazo a indústria permanente de armamentos pode neutralizar as tendências do modo de produção capitalista às crises e ao colapso e se ela pode assegurar um grau relativamente alto de crescimento". E aqui está uma terceira razão muito qualificada para explicar o interesse que os EUA e os demais países imperialistas têm de erguer a bandeira da defesa dos "direitos humanos" no mundo, de armas em punho. Quanto ao acúmulo de contradições que de tudo isso resulta, disso o imperialismo deixa para tratar depois.
Uma última causa da guerra: a localização estratégica daquela parte dos Bálcãs
Os Bálcãs, a Iugoslávia em particular, constituem um trecho estratégico tanto para a Rússia quanto para o EUA e seus aliados. O Mar Adriático, que se interliga com o Mediterrâneo e o Mar Vermelho, tanto se coloca como rota de conexão dos interesses russos na Europa como dos interesses dos imperialistas norte-americanos e europeus no Oriente Médio, esta a maior região produtora de petróleo do mundo. Trata-se, portanto, de uma área sob disputa, no interior da qual os EUA e seus aliados, aproveitando a situação de crise aguda atravessada pela Rússia, faz uma intervenção direta, por meio da OTAN, com vistas a se antecipar à Rússia no controle sobre a área. A intervenção unilateral, sem consulta à ONU e ao seu Conselho de Segurança, tem motivos óbvios: se a proposta de intervenção fosse levada ao Conselho de Segurança da ONU, onde a Rússia tem assento, dificilmente seria aprovada. Daí a intervenção direta, com a OTAN, da qual a Rússia não participa. O melhor desfecho desta guerra para os imperialistas ocidentais seria a queda de Milosevic assim como teria sido a queda de Sadam Hussein na Guerra do Golfo , para que, com um governo novo e aliado, o controle se tornasse mais fácil e completo. O fim da guerra, sem que este objetivo seja alcançado, apenas posterga um conflito que deverá passar por outros episódios em conjunturas futuras. É esperar para ver.
Que posição tomar diante do fato?
Para finalizar, apenas mais algumas poucas palavras acerca da atitude que aos trabalhadores, em nome do internacionalismo e de uma perspectiva anti-capitalista, convém tomar. Não se trata de "torcer", numa guerra como esta, como fazem certas esquerdas, pelo "lado mais fraco", no caso o governo sérvio, como acontecia com o conflito do Golfo, no qual essas "esquerdas" tomavam a defesa de Sadam Hussein. Nestes e em outros casos semelhantes temos a obrigação de saber separar povo de burguesia povo que é explorado e dizimado e burguesia que explora e dizima. Nestes termos, entre a burguesia sérvia e seu Milosevic e o imperialismo e seus Clintons e Blairs, entre outros, não existe nenhuma diferença essencial do ponto de vista dos trabalhadores. Ambos são inimigos dos trabalhadores, pois ambos praticam, desde o ponto de vista dos seus respectivos interesses de classe (capitalista), a mesma exploração e todos os massacres. Os que se identificam com o drama do povo kosovar, como do povo iraquiano, do povo brasileiro, do povo africano, etc., devem se colocar como inimigos da mesma guerra e dos seus mesmos promotores, independentemente das siglas ou dos nomes que ostentem. Ao nos insurgirmos contra os invasores de um país, como a Iugoslávia, devemos nos insurgir, ao mesmo tempo, contra a camarilha burguesa que domina e explora, dentro de cada país deste, o povo trabalhador cujo lema é o internacionalismo, jamais o nacionalismo proposto ou imposto por esta ou aquela burguesia. A defesa de uma nação ocupada deve ser feita pelos trabalhadores sob a ótica do internacionalismo, no espírito desta afirmação de Marx e Engels: "Os operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar aquilo que não possuem. Como, porém, o proletariado tem por objetivo conquistar o poder político e erigir-se em classe dirigente da nação, tornar-se ele mesmo nação, ele é, nessa medida, nacional, embora de nenhum modo no sentido burguês da palavra". A política do proletariado que chegue à conquista do poder político de uma nação, que se tornará uma nação socialista, não é o nacionalismo, mas o internacionalismo. É esta a ótica que deve ser mantida pelos que se insurgem contra as guerras e invasões capitalistas, como acontece neste exato momento na Iugoslávia.