A ESQUERDA E O NACIONALISMO CADUCO!
Uma breve trajetória do nacionalismo: os trabalhadores e a esquerda que quer "defender o Brasil"
A ideologia nacionalista, que tomou corpo no mundo do século XIX, foi fundamentalmente desenvolvida em bases étnicas, racistas e biologistas. Os Estados Nacionais em formação buscavam estimular um sentimento de identidade a partir desses pressupostos, ou seja, o "nosso povo" constitui uma "nação", pois possui uma cultura própria, uma religião que o identifica, costumes e tradições mesmas, etc. Desenvolveu-se um sentimento de superioridade a partir da construção da noção de raça. Passou então a existir uma "raça superior", um povo cuja constituição étnica e biológica era superior a outros povos, o que justificava, por isso mesmo, sua dominação sobre estes.
Do ponto de vista prático, esse tipo de construção ideológica servia não apenas aos estados europeus que lutavam pela sua unificação, como a Alemanha e a Itália que não por acaso desenvolveram algumas décadas depois o nazismo e o fascismo , mas também aos Estados que, já formados, expandiam suas fronteiras nacionais numa nova partilha do mundo que visava agora o continente africano e a Ásia. Toda a Ásia e a África foram partilhadas pelos europeus, liderados por ingleses e franceses e, desses continentes e conjunto de países, foi extraída a maior parte das riquezas que possuíam.
Daí vem a necessidade de justificar a dominação, pois era a dominação de um "povo superior sobre um povo inferior". Era a dominação de uma "raça superior" que, generosamente, levava "civilização" aos dominados. Essa formulação de um pensamento pretensamente científico era o que diferenciava esse novo fenômeno de nacionalismo de massas de uma "formação nacional", baseada nos princípios universais da razão de base iluminista. O chamado "darwinismo social" colocava, nesse momento do século XIX, a concorrência do sistema capitalista como algo de base natural e não social. Os mais fortes dominariam os mais fracos e sobreviveriam a estes. O cientificismo, numa injustiça ao próprio Darwin, arrebatava sua teoria para transpô-la ao mundo dos homens e justificar o mecanismo de exclusão de grandes contingentes populacionais.
ADVENTO E DESENVOLVIMENTO DO IMPERIALISMO
Ao final do século XIX, o processo acima descrito passou a ser conhecido como Imperialismo. A necessidade de expansão do capitalismo encontrava barreiras nas fronteiras nacionais dos países. Nações se fortaleciam econômica e militarmente e partiam na conquista de colônias verdadeiras expansões de suas bases geográficas que seriam expropriadas de suas riquezas, além de servirem como um mercado consumidor praticamente cativo.
Esse mesmo Imperialismo iria suscitar, inclusive na esquerda, ao nível mundial, um sentimento antiimperialista e as nações dominadas iriam desenvolver uma espécie de "nacionalismo de resistência", uma forma de nacionalismo que serviria para dar combate às nações imperialistas, buscando reconquistar a independência de alguns países por um lado e, por outro, procurando constituir uma base capitalista, como no caso do Brasil, retardatário no processo de formação de um parque industrial que o possibilitasse adentrar no universo capitalista num plano mundial.
Mas a crise capitalista que conduziu alguns países a essa primeira expansão imperialista no mundo não seria resolvida senão já no final da Segunda Guerra Mundial, após um período de profunda depressão em toda a década de 1930. Se na primeira fase do Imperialismo o mercado mundial era uma peça secundária e subordinada às economias nacionais, a nova rearrumação do mundo do pós-guerras, agora convivendo com uma supremacia americana, buscava justamente a conquista desse mercado mundial. Agora, o próprio Imperialismo se reformava e as anexações territoriais perdiam espaço para a tentativa dos Estados Unidos no sentido de estabelecer regras do mercado que possibilitassem a supremacia do modelo capitalista americano, o que, de fato, veio a ocorrer.
O capitalismo não se contentava mais com fronteiras nacionais e buscava o mundo como mercado. O boom do fordismo e a reconstrução do mundo, em marcha após as destruições das guerras, davam margem para avanços na economia e ganhos técnicos que catapultavam a produtividade e suscitavam forças dissolventes da velha economia nacional. O mundo se globalizava.
Nesse mesmo momento, o movimento operário, ao nível internacional, reivindicava a via nacionalista, quer seja devido ao antiimperialismo, mas também patrocinado pelo "patriotismo soviético" stalinista, que alçava a U.R.S.S. como a "pátria" a ser defendida pelos socialistas do mundo. Por fim, fechava o ciclo do "nacionalismo de esquerda" os movimentos anticoloniais na Ásia e na África, com o seu "nacionalismo libertador", que se colocava contrário à supremacia das nações européias e americana.
Não obstante a resistência nacionalista retardatária da esquerda, a economia de mercado se internacionalizava e se globalizava. O grande ciclo de desenvolvimento da economia ocidental do pós-guerra desmontou o pseudo-socialismo da U.R.S.S. e Leste Europeu a automação, a microeletrônica, a revolução nas comunicações, entre outros tantos fatores. O fragilizado capitalismo estatal e seus crônicos déficits nas balanças comerciais não suportaram o jogo do mercado mundial. A passagem dessas economias para a livre concorrência apenas consolidou o seu malogro, e as conseqüências sociais têm sido extremamente nefastas para as populações desses países.
Triunfou, até pelas necessidades da expansão capitalista, a idéia da internacionalização e da globalização da economia de mercado. A "fase de ouro" do pós-guerra possibilitou a estruturação do Estado de bem-estar social europeu num momento que a economia cresceu sucessivamente durante quase três décadas. Mas o crescimento infinito não existe numa economia capitalista. Desde o início da década de 1970, o mundo mergulhou numa crise em que, não obstante alguns curtos momentos de uma aparente retomada, persiste e se aprofunda até os dias de hoje, crise esta, agora sim, também globalizada.
Os efeitos da crise em alguns países transformam-se em causas para outros, numa relação de conexão e reforço que perpassa toda a economia mundial. Venceu a pressão mundial pela abertura dos mercados, muito embora, contraditoriamente, muitos dos países "de ponta" relutem em abrir os seus, estabelecendo barreiras entre si e frente aos chamados "emergentes", do Sul ou do Leste. Não obstante uma economia mundializada e a existência de mega-grupos capitalistas, cujo patrimônio supera o PIB de muitos países, as disputas internacionais ainda acham seu local de realização, sobretudo devido à crise.
Como hoje, a quase totalidade dos Estados Nacionais foi atingida pela crise capitalista, sofrem mais os seus efeitos os estados que, embora francamente capitalistas e adotando medidas neoliberais, retardaram-se no seu processo de industrialização. É esse o ponto crucial que explica o ressurgimento de um nacionalismo como forma de reação à ruína produzida pela economia capitalista em boa parte do mundo. Esse tipo de nacionalismo, principalmente o de caráter étnico ou religioso, não mais diz respeito à formação dos Estados Nacionais, mas ao desmoronamento das economias nacionais num momento agudo de crise e exclusão.
O BRASIL E A ESQUERDA NACIONALISTA
A nossa história política, sobretudo a história da formação de um pensamento político de esquerda, com sua respectiva prática, está e sempre esteve estreitamente vinculada à noção e ao sentimento de nacionalismo. Após uma fase inicial de luta, com os anarco-sindicalistas, os ideólogos da formação do PCB (Partido Comunista Brasileiro) não tardaram a advogar a aliança com o Estado Nacional brasileiro. Apesar de algumas disputas internas e brigas por posições, a esquerda no Brasil sempre marchou ao lado da chamada burguesia nacional.
Foi, juntamente com esta última, apeada do poder no Golpe de Estado de 1964. É lógico que a "esquerda" não pode ser imaginada como um bloco monolítico, mas ela é também produto de desenvolvimentos sociais contraditórios. Suas principais correntes, no Brasil, atendendo ora aos ditames soviéticos, ora ao antiimperialismo anticolonial ou mesmo à tendência mais recente à social-democracia, ao estilo europeu, não mediu esforços para promover alianças com as forças ditas "democráticas", leia-se: com a burguesia nacional brasileira.
Mas as forças econômicas que prevaleceram no capitalismo não foram, como vimos, as vinculadas aos Estados Nacionais, e sim as da internacionalização. No Brasil não é diferente. Não existe mais, no mundo de hoje, a possibilidade de uma estruturação econômica capaz de sustentar os anseios de uma burguesia local, de alavancar uma economia que não seja globalizada, dada à própria lógica de funcionamento do capitalismo atual, dado o grau de internacionalização e interdependência das economias, a associação mundial dos grandes capitais, o índice de produtividade das grandes corporações mundializadas, etc.
É por todos esses fatores que julgamos "caduco" e ultrapassado o nacionalismo defendido pela dita esquerda brasileira. Já não há possibilidade histórica para a sua realização, não há como edificar uma estrutura produtiva de base nacional, nem apoiando uma burguesia vencida pelo movimento do capital, nem iludindo os trabalhadores com as promessas de uma social-democracia que se desintegra no seu nascedouro, a velha Europa. É esse o imbróglio em que está metido a esquerda no Brasil.
Os adventos de nacionalismos que pululam no mundo, na atualidade, já não guardam semelhanças com o nacionalismo ideologizado e imperialista do século XIX, nem com os movimentos anticolonialistas do século XX. São, antes de mais nada, um subproduto de um mundo globalizado e em crise. São uma forma de esperneio de velhas economias arruinadas que não logram fazer parte ou apenas tangenciam o circuito capitalista mundial.
A realidade brasileira está nesse contexto de mundialização. A tentativa do governo FCH vai no sentido de colocar o país no circuito do capital mundial. Da mesma forma o faria um eventual presidente "democrata", um Lula, por exemplo os sociais democratas europeus que se transformaram em neoliberais de carteirinha não nos deixam mentir. Há alguma alternativa para uma administração capitalista do poder?
O que significa, então, desenvolver a economia brasileira para torná-la mais produtiva e torná-la apta à concorrência internacional? Mais produtividade traria mais emprego ou mais desemprego? Mais concentração de renda ou mais distribuição dela? As atuais fusões nos dizem algo? Uma maior capacidade produtiva aumenta o mercado consumidor ou o comprime? Algo a ver com o desemprego? A realidade do mundo moderno nos deve servir para algo mais do que apenas embotar as nossas consciências.
Não podemos engolir um discurso pseudo-moderno de uma esquerda caduca que diz querer "defender o Brasil", ou "salvá-lo". Assim o fazem os lulas, stédiles e tantos outros que continuam a cultuar uma visão romântica e saudosista de uma fase que foi vencida pela história. É por isso que mentem deliberadamente aos trabalhadores quando propõem não mais lutar por reivindicações salariais ou melhorias de condições de trabalho. Vários discursos foram proferidos por esses luminares colocando como ponto central o seguinte: "não é hora de pensar em aumentos, temos agora que salvar o Brasil". Os capitalistas agradecem!
Onde ficam os interesses dos trabalhadores que, mais que todos, têm sofrido as conseqüências dessa modernização? Estão dadas, mais do que nunca, as condições para uma internacionalização do movimento dos trabalhadores. Este sim, em contraposição ao movimento mundial do capital. O nacionalismo atual, mesmo o social-democrata da esquerda brasileira, é uma expressão da decadência do mundo capitalista. "É o produto do desespero que assola a população das economias em desagregação do mercado mundial totalizado" (Kurz). Queremos olhar para a frente...