A PROPÓSITO DA POLÍTICA DE FRENTE ÚNICA
O objetivo do presente artigo não é o de realizar um balanço profundo dos movimentos táticos e estratégicos do movimento operário socialista e comunista ao longo do seu desenvolvimento e de sua luta contra o capital, bem como de combate ideológico a todo tipo de traição e conciliação que se possa ter notícia na história deste mesmo movimento. Não! Não se trata disso, neste pequeno espaço de discussão que pretendemos abrir. O que queremos aqui é dar uma visão panorâmica e sumária de um dos aspectos da tática do movimento de esquerda, no enfrentamento com a burguesia e na construção dos instrumentos criados para a operacionalização da luta. Outros temas devem ser igualmente atacados, no que se refere às propostas táticas, estratégicas e organizacionais que se reproduzem e se articulam nos espaços de freqüência dos setores organizados e dos trabalhadores em geral. Neste sentido, abordaremos apenas um dos aspectos da tática, a nosso ver globalizante, no que diz respeito ao movimento prático e teórico de grande parte das esquerdas e dos movimentos de luta dos trabalhadores. É da tática do frentismo que trata o nosso pequeno esboço de análise, que hora oferecemos ao debate e à crítica, na perspectiva de construção de algo realmente sério, em se tratando de exercícios táticos e estratégicos. Passemos à discussão.
BREVES ANTECEDENTES
No início do processo de organização
da classe operária, numa perspectiva de combate e pela defesa dos interesses
de classe, estabeleceu-se a necessidade de articulação e direção
orgânica das lutas, daí o surgimento de associações
e sindicatos igualmente classistas. A organização se pautava,
portanto, pela união da classe trabalhadora, tanto no âmbito nacional
e mais ainda no internacional. Este era um momento de aglutinação
de forças, em que a independência de classe falava mais alto. Este
foi o momento de surgimento, por exemplo, da Associação Internacional
de Trabalhadores, a Primeira Internacional, criada a partir dos sindicatos
operários ingleses e franceses e de alguns exilados de outras partes
da Europa que viviam em Londres, lá pelo ano de 1864, como expressão
da solidariedade dos operários organizados e sem nenhuma perspectiva
de conchavos e artifícios malandros e oportunistas no que diz respeito
à composição das direções dessas instâncias.
Articulavam-se aí os comunistas e os anarquistas, sem, em nenhum momento,
cair a entidade maior dos trabalhadores numa instância frentista, em que
os interesses políticos e ideológicos fossem mascarados e indiferenciados
naquele espaço único. Não! As coisas eram diferentes e
se pautavam pelos princípios. Foi isso, por exemplo, que levou os anarquistas
a se debaterem e divergirem dos comunistas. Estrategicamente, os comunistas
e os anarquistas lutavam por uma sociedade sem classes; o que os diferenciavam
eram os princípios: uns defendiam a importância do Estado como
instrumento transitório de se alcançar a sociedade comunista,
outros achavam dispensável esse Estado. O fato é que os velhos
dirigentes da Primeira Internacional não transgrediam com o campo dos
princípios, defendendo sempre o direito da maioria de forma democrática.
Já na Segunda Internacional, criada em 1889, as mudanças
ocorridas são de caráter estrutural e na forma de fazer política.
Os participantes desta Internacional, ao contrário da Primeira, não
eram apenas formados de sindicatos e participantes individuais, mas sim de partidos
social-democratas e socialistas. Isso, se por um lado fez crescer e proliferar
pelo mundo as idéias socialistas marxistas, trouxe para dentro do movimento
dos trabalhadores questões novas, como, por exemplo, a luta pelo direito
de voto dos operários e a participação no Parlamento. Aparecem
aqui as lutas entre tendências da direita, da esquerda e do centro, que
tinham origem dentro dos partidos nacionais e transferiram-se para o campo da
Segunda Internacional. Outra questão que se debateu exaustivamente foi
o problema do colonialismo e a guerra. Quanto ao colonialismo, já condenado
unanimemente pelo Congresso de 1900, sete anos mais tarde, em Stuttgart, argumentou-se
que:
"(...) não se devia rejeitar todas as políticas coloniais em quaisquer circunstâncias; por exemplo, aquelas que, sob o regime socialista, poderiam servir a um propósito civilizador." (Dicionário do Pensamento Marxista)
Após o debate, essa questão foi rejeitada e substituída por uma nova resolução, que dizia condenar
"(...) as políticas coloniais capitalistas (que) devem, por sua natureza, dar lugar à servidão, trabalhos forçados e o extermínio dos povos nativos." (Op. Cit.)
Como vimos, os ânimos se esquentavam em cima de questões cruciais e, no Congresso de Basiléia, em 1912, ainda se defendia posições do congresso de Stuttgart, de 1907, quando o texto de Lênin, Rosa Luxemburgo e Martov, definia-se pela realização de
"(...) todo esforço possível para impedir a deflagração da guerra." (Op. Cit.)
Seguia a resolução, colocando o seguinte:
"(...)se, apesar disso a guerra for deflagrada, é dever deles (dos movimentos operários) intervir em favor de seu mais rápido término, empregando toda a sua força para utilizar a crise econômica e política criada pela guerra para levantar as massas e, desse modo, acelerar a derrubada do domínio da classe capitalista.." (Op. Cit.)
Em Basiléia houve uma proclamação
generalizada pela paz e, caso ocorresse a guerra, por unanimidade conclamava
a todos para uma ação revolucionária. Mas, como apontou
Isaac Deustscher, a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, provou
que essas palavras não passavam de um verniz cobrindo um nacionalismo
profundamente enraizado. Os principais partidos da Segunda Internacional deram
seu apoio à guerra travada por seus respectivos governos capitalistas.
Somente poucos partidos (russo, sérvio, húngaro) e pequenos grupos
dentro de outros partidos se mantiveram fiéis aos princípios previamente
estabelecidos pela Internacional. Até aqui os revolucionários
não abriam mão de princípios. Lênin, por exemplo,
articulou com outros partidos a ruptura com a Segunda Internacional e conclamava
a todos para a construção de um novo organismo da classe operária,
uma nova Internacional. Nada até então de políticas frentistas,
o que predominava era a garantia de princípios em defesa da revolução
socialista no mundo.
Foi na Terceira Internacional, basicamente no seu terceiro congresso, que, diante
de um movimento de refluxo da onda revolucionária até então
verificada, iria ser definida uma política de frente única dos
partidos da classe operária, nacional e internacionalmente, para lutar
pelas necessidades imediatas dos trabalhadores. A partir desta definição,
buscou-se uma conferência com outros organismos internacionais, basicamente
a Segunda Internacional e a União de Viena, em Berlim, em 1922, onde
não se conseguiu chegar a um acordo. Enquanto isso, a conjuntura internacional
estava cada vez menos favorável a uma intervenção revolucionária.
A revolução alemã fracassou, em 1923, iniciando um período
de relativa estabilização do capitalismo. No entanto, a tática
da frente única iria sofrer uma momentânea "derrota",
em 1928, quando se reuniu o sexto congresso da Internacional Comunista e que
ocorreu em igualdade entre social-democracia e "social-fascismo"
na definição de suas resoluções, ficando assim propostas
de uma frente única com os seus líderes rejeitados momentaneamente.
Em 1933, após a ascensão da ditadura nazista ao poder de Estado
na Alemanha, a direção da Internacional Comunista recomendou publicamente
aos partidos filiados uma aproximação com os comitês centrais
dos partidos social-democratas, para que acenassem uma proposta de ação
conjunta contra o fascismo. Já no sétimo e último congresso
da Internacional Comunista, em 1935, manifestou-se vigorosamente em favor de
uma frente única dos partidos da classe operária e sua ampliação
numa Frente Popular para combater o avanço fascista. Esta nova tática
inspirou a criação das Frentes Populares na França e na
Espanha, na luta contra o fascismo, bem como ampliou ainda mais o conceito tático
quando se apresentou esta como uma frente de paz entre a URSS e as democracias
burguesas ocidentais, ante a agressão fascista.
Esta foi, pois, durante muito tempo, a tática preferencial, senão
a única, de se fazer política no movimento operário e popular
- "temos que combater a direita", diziam uns, "não
podemos nos isolar", diziam outros. Ou seja, em nome do combate ao
fascismo nivelaram-se todos os projetos políticos em favor de uma suposta
frente. Esta tem sido a tática das esquerdas ao longo dos anos, e não
levou a classe operária a se destacar frente ao amplo leque de alianças;
ao contrário, fez com que ela se diluísse e acabasse por perder
os seus referenciais teóricos e práticos na luta pela independência
e autonomia de classe, a luta socialista.
A OPERACIONALIZAÇÃO DA POLÍTICA DE FRENTE
Passemos agora a compreender melhor como e quais
são os passos para a construção de uma proposta de Frente
Única, quer seja Frente Única Operária, ou simplesmente
Frente Popular. Das propostas dos primeiros congressos da Terceira Internacional
aos dias de hoje pouca coisa mudou, aliás a desfaçatez mudou para
pior. Naquela época se defendia a tática da frente única
na perspectiva de se unir ao máximo a classe trabalhadora, num momento
em que suas direções estavam definitivamente divididas e em que
precisavam os operários levantar a luta pelos seus interesses imediatos,
numa conjuntura de entre guerras e de empobrecimento generalizado da maioria
do povo. Por outro lado, devido à conjuntura de refluxo da onda revolucionária,
que varria o mundo até o começo dos anos vinte do presente século,
e, por que não dizer, por um profundo receio do isolamento das propostas
e programas revolucionários, bem como de um iminente crescimento de uma
reação nazi-fascista por parte da burguesia internacional, fez
com que durante um longo período se batesse, contraditoriamente, o movimento
operário e comunista, em construir uma unidade de classe dentro do possível,
para se tentar intervir nessa conjuntura específica. O fato é
que décadas e décadas se passaram e, no caso da tática
da Frente Única, por exemplo, mesmo depois dela ter-se metamorfoseado
em Frente Popular, que cabia parte e/ou setores das burguesias nacionais, que
se pensava estar em contradição com o capital imperialista, esta
não deixou de ser a maior de todas as traições da época
stalinista, no que se refere à tática, aliás que só
serviu à URSS, pois esta definiu-se pela política do "socialismo
em um só país", e, para que isso ocorresse, deveria ter
o apoio de uns tantos países capitalistas da periferia para se "fazer
frente" ao imperialismo. Em nome das políticas frentistas, traições
e mais traições. Adeus também a quaisquer resquícios
de internacionalismo proletário.
As políticas frentistas saíram da Europa e se desenvolveram por
toda a América Latina, África e Ásia, varrendo todos os
movimentos revolucionários desses continentes, sempre numa perspectiva
de aliança com a burguesia, é bom lembrar. Foi assim que, juntamente
com movimentos anticolonialistas, surgiram a Frente Argelina de Libertação
Nacional, Frente para Libertação de Angola, Frente Sandinista
de Libertação Nacional, Frente Farabundo Marti de Libertação
Nacional e tantas outras mais, que, ao invés de um trabalho preparatório
de formação e de desenvolvimento crítico dos trabalhadores,
apostou muitas vezes em táticas militares pura e simplesmente, rebaixando
assim o programa revolucionário de conteúdo socialista.
No movimento dos trabalhadores, a política de frente dilui a luta política
e ideológica das diversas correntes de esquerda. Estas passam a se ocupar
somente com o espaço e organismos dirigentes e abandonam de vez a luta
por concepções e formulações políticas claras,
no que diz respeito ao socialismo e aos meios de alcançá-lo. Elas
passam a criar e a aprimorar de forma legitimadora a frente e é assim,
por exemplo, que se criou o "critério da proporcionalidade",
para tão somente "acochambrar" todos os grupos em uma
segura e firme frente, que é lançada enquanto proposta tanto num
partido político, num sindicato, numa Central Sindical, etc. É
por isso que as novas formas de organização para a luta, que estão
sendo criadas, devem se preocupar com a união dos trabalhadores, mas
tendo sempre em mente que se deve construir esta unidade sobre um programa e
um tática que aponte para a ruptura revolucionária, que eduque
e forme os trabalhadores para dirigirem o seu poder de Estado. Isso não
pode ser confundido com nenhum frentismo decadente e por demais caduco.
Todavia, é sempre bom lembrar que, no caso específico do Brasil,
boa parte das ditas esquerdas - PT, PCdoB, PPS, PSB, PDT, PV, etc. - defende
nitidamente uma política frentista nos diversos espaços de atuação
e militância, que vai desde a composição de uma chapa sindical
até mesmo a uma eleição presidencial. Quem não se
lembra da Frente Brasil Popular? Pois é, quem pensar que esta iniciativa
foi um acordo momentâneo está muito enganado. Ele está presente
na cabeça de todos os tipos de reformistas, independentemente da camisa
que ele esteja usando e também do momento conjuntural que esteja passando.
Portanto, cabe aos militantes, realmente comprometidos com a luta socialista,
o papel de desmistificar para o conjunto dos trabalhadores esta prática
cotidiana de traição e adesismo a uma política nitidamente
de direita. Passemos ao debate.