CRISE GERAL E SISTÊMICA DO CAPITALISMO MUNDIAL E BRASILEIRO
NESTA LARGA CONJUNTURA DE VIRADA DE MILÊNIO

 

1. Palavras iniciais: como fala a propaganda burguesa e oficial acerca da crise

Referindo-se à imprensa burguesa de sua época, o velho Balzac assim escreveu em "As Ilusões Perdidas", já no primeiro quartel do século XIX: "O jornalismo é um inferno, um abismo de iniqüidades, de mentiras, de traições, que não se pode atravessar e de onde não se pode sair puro..." e " o jornal, em vez de ser um sacerdócio, tornou-se um meio para os partidos, e de um meio passou a ser um negócio". Balzac escrevia essas palavras quando o jornalismo burguês mal acabava de sair do casulo e muito antes de que alguém, mesmo sendo um Balzac, pudesse imaginar o que seria a mídia como um todo, nos dias de hoje, como meio de deturpação, de produção de mentiras em escala social, de massa, não só como um potente instrumento ideológico como também de acumulação capitalista - ou seja, um instrumento que, nas mãos dos capitalistas, serve para difundir mentiras, ilusões e distorções acerca de tudo e ainda tornar-se meio de produção de um tipo de mercadoria prenhe de altíssima lucratividade. O mais triste de tudo é constatar que não são poucos os jornais da chamada "esquerda" que fazem questão de copiar o padrão e o figurino da imprensa burguesa, hoje mais podre do que nunca, muito mais corrompida do que nos tempos em que Balzac escrevia a "Comédia Humana".
As crises cíclicas e as crises revolucionárias foram estudadas de maneira rigorosamente científica por Marx, Engels, Lênin, Trotsky e outras eminentes lideranças do movimento revolucionário dos trabalhadores. Eles demonstraram, por exemplo, que as crises cíclicas são sujeitas a leis, causas profundas, sobre as quais se desdobram inúmeros, variados e mutantes movimentos de superfície1. No entanto, a imprensa e a mídia burguesa em geral jamais estudam e apresentam a questão da crise a partir de seus pressupostos estruturais, políticos e sociais mais profundos; preferem, ao contrário, nadar sobre a superfície mais fluida, mais fácil, mais enganosa e também mais lamacenta das falsificações, para manter a massa do povo desnorteada e incapaz de completar uma totalização conceitual que lhe dê a chave do segredo de todo tipo de fetichização da sociedade burguesa.


2. E são muitos os exemplos das "análises" mentirosas...

Por exemplo, enquanto a taxa de lucro geral da economia da grande maioria dos países do mundo, incluindo, obviamente, o Brasil, experimenta uma queda tendencial que já atravessa pelo menos duas longas décadas; enquanto, por isso mesmo, essas mesmas economias produzem com uma margem de capacidade ociosa por esse tempo todo, exibindo um grande volume de capital (produtivo e financeiro) sobrante que não pode entrar em função - e este é um dos aspectos centrais de como uma crise se apresenta; enquanto, na mesma batida, o desemprego cresce no mundo a uma velocidade galopante, distribuindo miséria, doença, morte e destruição no seio das amplas massas populacionais dos diversos países e continentes do globo terrestre2; enquanto esse mesmo fenômeno reduz, principalmente nas últimas três décadas, o número de consumidores de mercadorias para uma capacidade física de produção que não cessa de crescer (mas crescer sem um correspondente mercado consumidor), reproduzindo e aprofundando a mesma crise estrutural - pois bem, enquanto esses fenômenos graves, de fundo, crescem e se aprofundam sem cessar, os analistas e comentaristas de jornais e da mídia burguesa em geral se comprazem em tecer comentários não sobre esses problemas decisivos, problemas de fundo, mas sim sobre as questões menos importantes, mais circunstanciais, mais irrelevantes (mas que servem para semear a ilusão de que "as coisas estão melhorando e que ainda podem melhorar"), as quais, se comparadas aos graves fenômenos por nós apontados mais atrás, não aliviam em nada a brutal sobrecarga que o sistema capitalista, nesta dobrada de milênio, já não pode, como está cada vez mais evidente, suportar.
Sabe-se, por meio de dados fornecidos pela própria ONU, que dos 6 bilhões de habitantes existentes no planeta Terra, mais de 2 bilhões, acima de um terço portanto, estão abaixo do que as Nações Unidas chamam de "linha absoluta de pobreza", causada pelos profundos problemas críticos mais atrás por nós alinhados. A pergunta é: como pode um sistema que só faz, por suas próprias leis, normas, processos e formas de acumulação (reprodução) e concorrência, desempregar e excluir, dar a volta por cima e reincluir esses 2 bilhões de desempregados e restaurar-lhes pelo menos um salário por mínimo que seja? Sabemos que, pelo próprio caráter do sistema do capital e pelo modo como ele funciona atrás do lucro, utilizando-se da concorrência, das fusões, dos enxugamentos, da centralização dos capitais, da exclusão e da concentração da renda, esta reinclusão jamais poderá acontecer. Este é apenas um dos exemplos das atuais demonstrações de impotência cabal que a ordem capitalista não se cansa de revelar.


3. Como se urde a farsa e a fetichização das notícias e das "análises" na imprensa burguesa

E, no entanto, ministros, presidentes, governadores, senadores, deputados, vereadores, diretores de bancos centrais, executivos, secretários de Estado, juizes e magistrados em geral, produtores de marketing, burocratas de todo tipo e, inclusive, intelectuais, analistas e comentaristas burgueses, os quais, bem pagos por grandes institutos de pesquisa, pelas grandes empresas, pela grande imprensa e pela mídia, para propagar ilusões e sensações fragmentadas e ilusionistas, debruçam-se sobre pequenos e insignificantes problemas cujos movimentos, ora para "cima", ora para "baixo", não deslocam um milímetro sequer os problemas decisivos atrás citados. Por exemplo, enquanto o desemprego se alastra como um câncer em acelerado processo de metástase em todo o tecido social, os nossos comentaristas oficiais se inebriam em constatar que tal ou qual taxa de juros subiu ou desceu 1 ou 2% neste ou naquele rincão, a moeda nacional voltou a se valorizar ou a se desvalorizar - a depender das circunstâncias - em 0,5 ou mesmo 1 ou 2% num prazo curto, a taxa de desemprego voltou a crescer, numa ou em duas semanas (geralmente para depois voltar a cair) em, digamos, 0,75%, a taxa de crescimento do PIB voltou a sofrer elevação, num mês tal, de 0,05%, e assim por diante. Bagatelas e mais bagatelas, nada mais do que simples bagatelas.
Tais "recuperações" são dadas como sintomas de progresso da situação geral e suas apresentações verbais ou por escrito são sempre acompanhadas de advérbios e adjetivos que dissimulam as verdadeiras tendências. Ao invés de dizer "o desemprego sofreu uma queda de tanto por cento neste ano e a tendência, enquanto permanecerem de pé os mecanismos de reprodução do capital, não poderá senão continuar crescendo", eles dizem ou escrevem: "o desemprego ainda está baixo, aquém do esperado e do previsto, mas... deverá ser recuperado a partir de tal ou qual medida governamental" - e aí vêm as mentiras que se seguem umas às outras. Outro: "a renda ainda está concentrada, mas... com tais e tais medidas a tendência é distribuí-la de modo mais justo", quando o exato seria afirmar, com todas as letras, que a renda, no capitalismo, jamais será desconcentrada, simplesmente porque o pressuposto da acumulação ampliada do capital - e, paradoxalmente, de suas crises - é o aprofundamento da centralização do capital e a concentração do produto social em poucas mãos. Este "ainda", que é peça obrigatória de todo discurso oficial, é a síntese da mentira, porque pressupõe, cinicamente, que as coisas ainda "vão mudar para melhor". É desta maneira que as aparições, exibições e os comentários são forjados para disseminarem ilusões através de um potente e universal meio de propaganda cujo funcionamento não só inibe como não dá nem meios e nem tempo para a população processar conscientemente o que lhe está sendo passado como "notícia' e "verdade" - a verdade dos Boris Casoys, dos Ratinhos, dos Faustões, dos "Fantásticos" e dos garotos e garotas-propaganda do Sr. Bill Gates, da CNN, do Sr. Roberto Marinho, do Sr. Sílvio Santos, do Sr. Edir Macedo, e de outros titãs da imprensa e mídia burguesa no mundo e no Brasil.


4. As correlações entre os diversos aspectos de uma crise global e total

Desde que foram escritos A Ideologia Alemã (Marx e Engels) e o famoso Prefácio à Contribuição para a Crítica da Economia Política (Marx), no século passado, que se sabe que "o modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social, política e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina a sua consciência"3. As forças e os movimentos de condicionamento que vão da base à superestrutura social e desta à base não são, a despeito de terem sua fonte essencial na esfera da produção material, lineares e nem correm em sentido de mão única. Ao contrário, são movimentos complexos, intrincados, muitas vezes de difícil apreensão e que quase sempre chegam de uma esfera à outra através de caminhos indiretos e cheios de mediações que só uma análise cuidadosa e eminentemente dialética pode apreender. Está claro que nem o pensamento (econômico, filosófico, sociológico, acadêmico ou o subpensamento jornalístico, etc.) burguês mais "refinado" pode levar a cabo uma análise científica deste tipo e desse porte.
De modo que é perfeitamente possível detectar, por meio da análise, os fios, diretos e indiretos, enviesados, mediados, que unem os movimentos que se passam na esfera da produção material - como as crises econômicas agudas - aos movimentos que se passam na esfera da política, do direito, da moral, dos comportamentos sociais, etc. O fato de que não se trata de ligações lineares não quer dizer nem que a base da produção material deixe de ser a mais remota fonte das representações ideológicas e comportamentais e nem que não possam ser detectadas em seus contornos mais gerais. Este tipo de concepção é o único que nos serve para alcançar uma totalização crítica de todos esses movimentos e momentos de crise no atual estágio de desenvolvimento do sistema do capital, como veremos a seguir.


5. As leis da produção e de mercado capitalistas já não bastam, e recorrem ao concurso de uma corrupção que se reproduz necessariamente e com tendências universais

São tantas as contradições que travam a reprodução capitalista nas três últimas décadas, quando entraram em cena, conjugadamente, a chamada reestruturação produtiva (momento estrutural) e o neoliberalismo (momento político), que as leis, os métodos e os processos que acionavam ou alavancavam a produção capitalista não só se esgotaram, para levar a efeito uma acumulação sobre bases horizontais (colonização de fronteiras e mercados novos, por acréscimos), como, opostamente, colocaram-se como barreiras à continuidade desta mesma produção sem terríveis turbulências, entre as quais um nível sem precedentes de desemprego, de dinheiro rotando para fins exclusivamente especulativos, de índices alarmantes de ociosidade de parcelas crescentes do capital, e assim por diante. Como já frisamos muitas vezes em Germinal, os pressupostos que um dia fizeram o sistema capitalista crescer, agora se colocam como bloqueios ao seu crescimento e tornam-se fatores de crises recorrentes e cada vez mais profundas, interligadas e universais.
Assim, à medida que tais mecanismos se tornam contraproducentes, nada mais natural ao sistema capitalista - à classe burguesa, ao Estado e aos governos, às instituições, aos agentes, políticos e intelectuais burgueses - do que buscarem compensações numa outra ordem de medidas que, tendo estado sempre presentes na ordem burguesa, desta vez estão sendo convocadas para serem utilizadas num grau de paroxismo nunca visto antes e em qualquer tempo. É aqui que a corrupção do Estado, das instituições e personalidades burguesas se multiplica como uma enxurrada que não pode senão crescer e se alastrar. Não por mera coincidência, este fato se torna mais uma fonte de mistificação da mídia burguesa, ao anunciar, quando os bodes expiatórios são apanhados para encobrir a ação dos verdadeiros e maiores agentes e beneficiários da corrupção, que esta será banida do sistema e que o capitalismo, através desta ação purificadora da "cidadania", será restaurado da base à ideologia - quando na verdade a corrupção tornou-se, como vimos acima, um processo não só necessariamente vital como irreversível aos desígnios e às perspectivas da produção e da classe capitalistas. Não tem retorno, e só poderá ser eliminada com a eliminação da própria ordem do capital e seu Estado. É como disse um pequeno sábio de oposição no Brasil: "No ponto a que a coisa chegou, atacar a corrupção é o mesmo que atacar o capital". Pensamento lapidar, de quem efetivamente pensa.


6. Um método muito atual e exemplar de compensação (corrompida)...

Para compensar todos esses bloqueios estruturais atrás citados, o capital não tem outra saída senão centralizar-se e concentrar-se e passar por cima de todas as leis que criou para reproduzir-se. Mesmo operando com capacidade ociosa, ele tenderá a expandir-se (os grandes grupos) e a procurar expandir a taxa de mais-valia (grau de exploração do trabalho), mesmo que para isso tenha de abandonar problemas como estreiteza de mercados, custos de produção e custos de circulação. Para isso, recorrerá, cada vez mais, aos expedientes políticos de garantia da taxa de lucro ou de um lucro que não derive da produção e de sua realização no mercado. Referimo-nos à prática da compensação via festival de incentivos e subsídios fiscais, financeiros e físicos (doações de terrenos, instalações, infra-estrutura, etc.), crédito a perder de vista, doações, transferências líquidas de dinheiro do Estado para poderosos grupos privados, e tudo o mais, que vêm em socorro de uma taxa de lucro que não cessa de cair. À clássica e básica expropriação da mais-valia, ajunta-se agora a ajuda especulativa feita por intermédio do Estado, com transferências jamais ressarcíveis...
Este expediente compensa, em certa medida, um lucro que deixa de ser gerado na produção e realizado na circulação capitalista; ele transfere para a intervenção do Estado o ônus de uma doação que substitui uma parcela do lucro em queda ou que está sempre ameaçado pela superprodução. Tais dádivas substituem algumas das incertezas e dos bloqueios oferecidos pelas leis da produção e do mercado, que se tornaram insuficientes para garantir a marcha generalizada da acumulação capitalista à escala planetária. Só que, agora, é o Estado que toma o lugar, em parte e cada vez mais, de tais leis e do mercado e, para fazer isso, tem de se endividar, não só pelas transferências líquidas que faz (tipo PROER) como pelas renúncias fiscais, ou seja, pelos impostos que deixa de receber, causando queda na arrecadação, aumento dos déficits orçamentários e cortes nos gastos sociais (saúde, educação, etc.). Mas, de onde provêm os recursos utilizados pelo Estado para prover e compensar as megaempresas e os megabancos com tantas regalias financeiras? A resposta é inequívoca: dos impostos que recaem, com peso maior e mais fatalmente, sobre trabalhadores, pequenos (e quase em extinção) funcionários públicos e, até, sobre aposentados em geral. Sobre a grande maioria da população trabalhadora.


7. A corrupção como metástase necessária e sistêmica da totalidade capitalista

Mas a corrupção não termina aí, está em todo canto. As crises estruturais - como esta longa crise de superprodução pela qual passa o capitalismo mundial e brasileiro na atualidade - também acirra os conflitos no âmbito dos mandatários de cada república burguesa. Quando as crises se aprofundam e se generalizam, uns perdem mais e outros menos, outros lutam para lançar sobre os outros os maiores ônus e as maiores "culpas" e "responsabilidades" pela crise.
É desta forma que tem início - mas só o início - as "crises no topo (do Poder)" de que nos fala Lênin, ao descrever uma situação revolucionária. Partidos da ordem digladiam-se, rompendo pactos, o Parlamento se torna uma arena de bichos a se comerem com uma voracidade muitas vezes pior do que nos tempos de "normalidade", denúncias antes inimagináveis vêm à tona, a imprensa e a mídia se entredevoram, ao mesmo tempo em que ganham muito mais dinheiro com a exibição dos tristes restolhos, e assim por diante. As coisas tornam-se mais descaradas ainda se, apesar de tudo, existem eleições à vista. A partir de um tal estágio inicial, as "crises no topo" tanto podem ser resolvidas, se as crises são solucionadas, como podem aprofundar-se em "rachas" insolúveis, se a solução não pode ser encontrada e o próprio povo resolve, por entre as fendas que são abertas, fazer sua própria intervenção. Em todo esse tipo de processo, a corrupção, que corre organicamente ligada à crise estrutural e política e que se aprofunda com elas, só faz bater seus próprios recordes.


8. O "caso Nicéa Pitta", um primor de exemplo...

Este caso de megaescândalo, o mais recente e, também, o mais escabroso que veio à tona, é um exemplo ímpar de demonstração de tudo o que foi afirmado mais acima. A sua originalidade reside apenas em que foi o único, entre tantos outros que se reproduzem, mas que têm suas denúncias e investigações interrompidas assim que se "pega" um "bode expiatório" e que alcança um limite que não deve ser transposto (para deixar intocados os "peixes graúdos" da corrupção), que fluiu até o ponto em que chegou. E por quê? Simplesmente porque são grandes as contradições entre grandes interessados no caso. Mas, mesmo neste, denúncias e investigações jamais passarão daquele "certo ponto".
Uma "primeira dama" resolve, depois de viver por cerca de 30 anos com um marido-secretário, marido-prefeito, enfim, marido-corrupto,, "abrir o bico" e pôr a nu todas - ou quase todas - as sujeiras que viu e das quais tomou parte, junto com o dito marido, por esse longo tempo, no lar, nas relações pessoais com "amigos" e com seu Criador, no Executivo, na Câmara de Vereadores, em todo canto, tempo tão longo o bastante para que ela tivesse fartas oportunidades de trazer a público as denúncias que só agora traz à luz do dia. Por que só agora o faz? O que menos conta na sua motivação é a chamada "crise conjugal"; o que mais conta é a crise política que está por detrás do fato e, mais atrás ainda, a crise econômica que assola o país - e, como estímulo, as eleições que se avizinham. Desde 500 anos antes que existe corrupção grossa e pesada neste país, e nenhum governo jamais foi derrubado por corrupção, porque, se corrupção derrubasse governo, nenhum teria ficado de pé. Por detrás de cada "queda por corrupção" há sempre um motivo proveniente de interesses políticos e econômicos em crise. Como foi o caso Collor e como é o caso Pitta-Maluf.
Existe a crise. A crise é geral e sistêmica. A crise deteriora e descompensa interesses econômicos, políticos e eleitorais entre segmentos da burguesia e de suas representações partidárias. Está-se à beira de uma eleição geral. Candidatos precisam afirmar-se, assim como candidatos precisam ser afastados. No caso, e isto é evidente - principalmente depois que o namorico PSDB-PFL-PPB chegou a (mal) termo - os que estão à testa do governo num segundo mandato não têm qualquer interesse em passar o cetro para os partidos concorrentes e, num tal quadro perspectivo e propositivo, nada mais confortável para o PSDB e seus mandarins do que afastar, de um só golpe, concorrentes como os senhores Maluf e Antônio Carlos Magalhães, aliás, os mais arranhados no episódio diretamente promovido pela primeira-dama Nicéa Pitta (episódio visivelmente aplaudido pelo governador de São Paulo, Mário Covas, e o Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso). Foi por isso que o mar de lama da Prefeitura de São Paulo, a maior cidade de toda a América do Sul, a sede do maior estoque de capital deste continente, veio à tona e foi por isso que a Dona Nicéa entrou nessa como mero instrumento.
Mas que ninguém se engane: este episódio, que teria muito mais para nos contar, vai ser, logo que esses objetivos forem alcançados, devidamente sufocado muito antes de que certas sumidades, também apontadas pela Dona Nicéa como peças fundamentais do largo espectro de corrupção do país, possam correr o perigo de terem suas chagas também expostas a público. E chagas, neles, é o que não falta. Porém, pelo menos por hora, continuam fortes demais para que suas mais íntimas faculdades possam ser exibidas à execração pública. Mas o episódio pelo menos serviu para começar a deixar claro para a população que não existe uma só célula do Estado burguês, executivo, legislativo ou judiciário (o Estado-Montesquieu) no Brasil ou em qualquer país do mundo - vide a "valente" nação ianque e a "nobre" Inglaterra! - que não se alimente da corrupção, de uma corrupção que se tornou o seu oxigênio e que não tem retorno enquanto o que a alimenta e a reproduz, o sistema capitalista, estiver de pé.


9. A norma de legitimação da corrupção nas instituições e no Direito burguês

Para que o Estado passe a atuar sistemática e naturalmente assim, o sistema de leis, normas e regras terá de ser continuamente mudado. Nesta ordem de acontecimentos, o que antes era tido como "ilegal" ou "antiético" passa a ser agora o habitual e a legislação e o Direito, de exercício prático em exercício prático (como se diz no jargão jurídico: "consuetudinário"), irá se ajustando às novas exigências - antes tidas e havidas como "imorais" e "ilegais", mas agora absolutamente irreversíveis, normais e necessárias.
A corrupção, que é um "mal" reconhecido só enquanto a lei e o código moral não mudam para se readaptarem, alastra-se, e a lei e a norma social burguesa vão inserindo-a como normalidade. Exemplo: antes, uma mulher "transar" comercialmente com 40 homens num só dia era considerado um monstruoso caso ou crime de "prostituição" e "imoralidade"; hoje, as atrizes pornôs fazem a mesma coisa, também comercialmente, mas a norma social burguesa e a própria lei tomam o fato como uma legítima "prática profissional", com direito a exibição na mídia - que também ganha rios de dinheiro com isso. Como se vê, tudo que era sólido se desmancha no ar...
Assim, a corrupção avança sem cessar, alcança o status de prática social normal, agora praticada, como expediente de sucesso, por governantes, políticos em geral, executivos, empresários, líderes sindicais, chefes de igrejas, donos da mídia, dirigentes de clubes esportivos, estrelas e "artistas" da música "popular", do cinema, da TV e dos esportes, intelectuais, jornalistas, gerentes e chefes de quaisquer setores e seções (na empresa e no Estado), policiais, magistrados, comerciantes, advogados, juizes, desembargadores, corretores, profissionais liberais, donos de loterias e de bingos, publicitários, diretores de instituições de ensino e de saúde, players das finanças - e tudo o mais. Quando a lei incorpora a corrupção como prática legal, novas formas de corrupção necessariamente aparecem para depois serem de novo assumidas e, assim, também na superestrutura, as contradições e imundices do capitalismo aumentam e se reproduzem sem cessar. Talvez esteja para aparecer um outro gigante das letras para dar atualidade, de forma tão mordaz, à Comédia Humana iniciada pelo grande Honoré de Balzac. Aqui, vale a pena lembrar as palavras de Émile Faguet em 1887: " O realismo devia voltar; pois é uma lei em história literária (...) que a uma grande agitação e a um grande vôo da imaginação sucede a necessidade de voltar á terra, de retomar o real, de ver 'menos longe porém mais claro', como disse Musset".


10. Concluindo...

Dessas contradições só se podem salvar os que cada vez mais nada têm a ganhar ou a perder e que, cada vez mais, também, pagam a conta delas: os trabalhadores e os desempregados. Esses, que já são vítimas da exploração, da opressão e da repressão, das crises e do desemprego, são vítimas maiores da insegurança e da imoralidade, tanto da que ainda é ilegal quanto da que já se tornou norma jurídica. E, como vítimas, são os únicos segmentos sociais que pagam toda essa conta e que por isso têm a faculdade de reagir contra o peso desta carga social sobre seus corpos e espíritos.
Tal nos parece a perspectiva do capitalismo e daqueles a quem o capitalismo nada mais tem a oferecer - a não ser a pior degradação humana. Mas é preciso notar que este processo não tem nada de "imoral" em sua gênese, mas tudo de social, pois as suas contradições, mesmo as morais, são fruto das relações críticas que se entrelaçam entre uma estrutura e uma superestrutura solidariamente em crise e se rachando por dentro, por conta de tais contradições.


NOTAS

1 - Consultar, Marx, K., O Capital, Livro III, Seção III e Lênin, V. I., A Bancarrota da Segunda Internacional.

2- É fato já corriqueiro que aproximadamente metade da população do continente africano foi literalmente eliminada por doenças e guerras de massacre nos últimos 30 anos, o que, convenhamos, não se deu por acaso.

3 - Em uma carta dirigida a Franz Mehring, em 14 de julho de 1893, Engels procura rebater alguns críticos desta concepção, que afirmavam que esta visão dele e de Marx encerrava uma concepção mecanicista, de via única, de condicionamentos unilaterais da "base" à "superestrutura", sem retorno. Defendendo a concepção materialista e dialética da história e da sociedade, Engels assim se expressava em sua carta a Mehring: "Isto geralmente é acompanhado pela seguinte noção estúpida dos ideólogos, segundo a qual, como nós negamos que as diversas esferas ideológicas que desempenham qualquer papel na História possuam um desenvolvimento histórico independente, negamos também que possuam qualquer eficácia histórica. A base disto reside na concepção trivial não dialética da causa e do efeito como pólos opostos rígidos, na ignorância absoluta da interação".