DIA INTERNACIONAL DA MULHER
A CONSTRUÇÃO
COLETIVA DO 8 DE MARÇO:
RESISTÊNCIA, MITO E FORÇA PROPULSORA
O 8 de março é celebrado no mundo todo como o Dia Internacional da Mulher, porém não existe uma versão única sobre os acontecimentos que levaram ao estabelecimento desta data. Encontramos na história sobre o 8 de março algumas imprecisões. A versão mais conhecida no Brasil trata de uma greve iniciada em 8 de março de 1857 em que trabalhadoras da indústria têxtil de Nova York, reivindicando diminuição da jornada e melhores condições de trabalho, teriam sido queimadas por um incêndio causado pelos patrões.
As divergências sobre o fato estão centradas principalmente quanto ao tempo, o local, o incêndio e o número de mortos. A greve teria ocorrido em 8 de março de l857 ou 1910? Em Nova York ou Chicago? Teria ocorrido o incêndio nesta mesma greve e seriam 108, 120 ou 129 mortas? A indicação da data para homenagear as trabalhadoras foi da UNESCO, Clara Zetkin ou a ONU?
As transformações que sacudiram o final da década de 60 e começo de 70, questionando valores, comportamentos e idéias arraigados na sociedade burguesa, trarão a questão da mulher para o cenário das discussões, e no seu bojo, o 8 de março como marco das lutas de libertação da mulher. O interesse em conhecer sua história através dos séculos, suas experiências e seus direitos, fará com que a mulher de objeto se torne objeto de estudo. Neste contexto, pesquisadoras preocupadas em desvendar os acontecimentos que originaram o Dia Internacional da Mulher irão afirmar que, no decorrer dos anos que separam os acontecimentos reais da greve das norte-americanas, tem sido construído um mito sobre o fato. Mito este que está imbricado com a construção do movimento feminista. "O mito acontece sempre que uma idéia consegue perpassar a história e se manter ao longo do tempo firmando-se como motivação forte e concreta para sustentar as lutas do presente" (Ermanno Allegri). Na verdade, diversos fatos ocorridos nos EUA, Europa e Rússia, no final do século XIX e começo do século XX, envolvendo mulheres trabalhadoras, foram ao longo do tempo se entrecruzando e a data e os fatos se unificando, dando origem ao 8 de Março. Vejamos:
Fala-se de uma greve de costureiras de uma fábrica têxtil em Nova York, em 1857. Durante o período de paralisação, em 8 de março, uma grande manifestação é realizada por as operárias que são duramente reprimidas pela polícia e perseguidas pelos patrões, transformando este fato num marco de luta para as trabalhadoras. Em 1907, no dia 8 de março, uma grande "Marcha da Fome" é realizada em NY, para lembrar a greve de 1857. Essa manifestação, segundo uma das versões, marcaria a origem do Dia Internacional da Mulher.
Uma segunda versão é que a greve das operárias têxteis teria iniciado em 22 de novembro de 1909, em Nova York, estendendo-se até 15 de fevereiro de 1910. Durante os piquetes, sofrendo frio e fome, as operárias foram insultadas, ameaçadas e presas. Em 27 de fevereiro deste ano, 3.000 mulheres se encontraram e se misturaram às socialistas e sufragistas numa grande manifestação.
A greve das operárias têxteis é geralmente confundida com o incêndio ocorrido na Triangle Shirst Waist Company, uma fábrica de vestimentas de N.Y, em 29 de março de 1911, que matou 134 trabalhadores, a maior parte mulheres jovens. O trágico acidente teria ocorrido pelas péssimas condições de trabalho, já que não havia um sistema de segurança e ainda pelo fato dos operários trabalharem trancados, como forma de impedi-los de sair do local de produção.A versão sobre a indicação do 8 de março como Dia Internacional da Mulher, que é bastante aceita, está vinculada à revolta das mulheres russas, ocorrida em Petrogrado, em 23 de fevereiro (no calendário juliano, pois no calendário ocidental, ou seja, gregoriano, corresponde a 8 de março) de 1917, quando operárias e camponesas foram às ruas, ameaçando as forças czaristas, protestar contra a fome infringida aos seus filhos em virtude da I Guerra mundial. O movimento se estendeu para as fábricas e quartéis derrubando a monarquia russa. Nas palavras de Alessandra Kollantai "a revolução de fevereiro estava para começar". Com a vitória bolchevique, o governo soviético transformou a data em feriado comunista, procurando impulsionar a luta internacional das mulheres. Segundo Lênin, sem elas "não haveríamos vencido, ou haveríamos vencido a duras penas".
Outro dado importante é o II Congresso Internacional das Mulheres Socialistas realizado na Dinamarca, em 1910, no qual as delegações propõem estabelecer um dia como referência mundial de luta para as mulheres, à medida que, na Europa e nos EUA, já estavam ocorrendo manifestações com este caráter. Havia a proposta de fixar o dia da mulher para o último domingo de fevereiro, porém acabou valendo a iniciativa de Clara Zektin, que, por intermédio do Jornal "A Igualdade" (que tinha 82.000 assinaturas), noticiou a existência deste dia, apresentado na conferência e aprovado no Congresso.
Considera-se a 1ª manifestação do Dia Internacional da Mulher a ocorrida em 19 de março de 1911 (em homenagem à Revolução de 1848, na Alemanha), organizada pelo Secretariado Feminino da II Internacional Comunista. Este evento reuniu 1 milhão de mulheres nos EUA, Alemanha, Dinamarca, Suíça e outros países da Europa, reivindicando direito ao voto, ao trabalho, a ocupar cargos públicos, fim da discriminação nos locais de trabalho e segurança no trabalho. Segundo Allessandra Kolontai, este l.º "dia internacional da mulher excedeu todas as expectativas. (...) A Alemanha e a Áustria eram um mar ondulante de mulheres. Reuniões eram organizadas em todos os lugares. (...) Nas pequenas cidades, até mesmo nas aldeias, os salões estavam tão cheios que havia pedidos para os trabalhadores homens cederem seus lugares para as mulheres. Os homens ficaram em casa com as crianças para variar, e suas esposas, as escravizadas donas-de-casa, foram às reuniões. Durante as maiores manifestações de rua, nas quais tomavam parte 30 mil pessoas, a polícia decidiu remover as faixas dos manifestantes: as trabalhadoras se opuseram. Na luta que se seguiu, o derramamento de sangue foi evitado apenas com a ajuda dos deputados socialistas no parlamento". Dez dias depois, o incêndio na Triangle confirmaria as denúncias feitas durante esta manifestação.
O valor dos acontecimentos do passado, não importando a precisão do tempo, está no fato das mulheres trabalhadoras, a exemplo dos homens trabalhadores, terem se levantado contra a super exploração do capital, reivindicando melhores salários e condições de trabalho, assim como lutarem por sua emancipação.
Longe de considerar uma invenção intencional, ocorreu, na verdade, como bem coloca M.Dolores Farias em sua pesquisa sobre esta data, "uma transfiguração dos acontecimentos históricos ... como uma colagem, cujos pedaços ou fragmentos juntos e montados exprimem um sentido geral". A construção simbólica do mito do 8 de Março é significativa para os movimentos de mulheres que , nesta data, se encontram, se organizam, se unem, para irem a público e serem vistas e ouvidas, num ato que integra todas as mulheres do mundo.
Por outro lado, o mito do 8 de Março tomou grandes dimensões, sendo, inclusive, absorvido pelo sistema capitalista, que, por intermédio dos órgãos governamentais, meios de comunicação, partidos políticos (inclusive os considerados de esquerda), o comércio, empresas e a mídia em geral, realizou, nesta data, um verdadeiro estardalhaço em torno da importância feminina, que não passa de demagogia. É assim que a ONU decreta em 1975 o Ano Internacional da Mulher, o que na prática nada significou, e a UNESCO, em 1977, reconhece o 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.
O espaço político para denunciar, reivindicar e celebrar as lutas das mulheres, tem-se tornado instrumento de mercantilização da imagem feminina e de campanhas supostamente em defesa da mulher. As mulheres não querem ser homenageadas com flores, discursos evasivos ou exaltadas por seu sexo, querem o fim da discriminação e da violência e o direito ao trabalho, à saúde e à educação. O número de mulheres mortas, na Grande São Paulo, por violência doméstica, ultrapassa os casos de câncer de mama, útero e Aids; as mulheres passam cinco vezes mais tempo que os homens se ocupando dos filhos e das tarefas domésticas; seus salários são 25% menos do que os dos homens; no mundo, 2/3 dos analfabetos são mulheres; elas são 70% mais pobres, apesar de executarem 2/3 de todo o trabalho realizado no mundo; milhares ainda morrem de parto e aborto; são, enfim, junto com seus filhos, as principais vítimas da violência e do sofrimento que o capitalismo é capaz de impor.
A construção do mito do 8 de Março, apesar das imprecisões até hoje não resolvidas, serviu e serve para mobilizar, conscientizar e legitimar a luta feminina, confirmando a colocação de Levy- Strauss de que há eficácia simbólica no mito, pois há significados e práticas sociais na sua construção, sendo ele "capaz de ativar o potencial político de seu grupo social, nesse caso o das mulheres" (M. Dolores Farias).
* Este matéria foi baseada nos artigos: "Dia Internacional da Mulher - 8 de Março. Anotações sobre Mito, Política e Mulher", de Mª Dolores Mota Faria; 8 de Março - As Raízes Proletárias e Revolucionárias do Dia Internacional da Mulher", de Anaí Caproni; e Le 8 Mars, mais por quoi faire?", de Florence Monttreynaud.