EDITORIAL
ORIENTE MÉDIO
— UMA GUERRA RECORRENTE
Oriente Médio é tido como o berço da civilização. Lá, nasceram, cresceram e desapareceram sociedades importantes, como os mesopotâmios ou os persas. Por lá passaram e se enfrentaram os maiores impérios da história: romanos, gregos, árabes, bizantinos, turcos otomanos, britânicos... Foi, também, naquele solo arenoso e cheio de pedras, que surgiram três das mais importantes religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. E, no século XX, aquela região desértica tornou-se centro dos interesses de todas as potências, em virtude de suas imensas reservas de petróleo. Inglaterra e França, potências imperialistas que saíram vencedoras da II Guerra Mundial, retalharam o Império Otomano, dando origem aos países que hoje existem no Oriente Médio. Assim nasceram a Síria, o Iraque, o Líbano e a Jordânia (então chamada Transjordânia).
Em 1947, após o final da II Guerra Mundial, os Estados Unidos e a então União Soviética apoiaram a criação do Estado de Israel, na ONU, e uma nova partilha foi determinada. A manobra visava acabar com a dominação das enfraquecidas Grã-Bretanha e França do Pós-Guerra, na região. A resolução das Nações Unidas previa a criação de um Estado árabe e um judeu, na Palestina, até então sob domínio inglês, numa estreita faixa entre o Mediterrâneo e o Rio Jordão, do tamanho do Estado de Alagoas.
A primeira conseqüência dessa medida foi a criação do Estado de Israel, em 1948, seguida de uma invasão promovida pelos países árabes — Síria, Egito, Líbano, Jordânia e Iraque — com o objetivo de acabar com o recém-criado país, no nascedouro. Esses são derrotados e Israel saiu com um território maior do que obtivera na partilha. Por seu lado, o Egito ocupou Gaza e a Jordânia anexou a Cisjordânia, dois territórios onde se espera criar o Estado Palestino.
A situação de permanente instabilidade na região acaba explodindo em 1967, na famosa Guerra dos Seis Dias em que, mais uma vez, os árabes são derrotados e Israel amplia mais ainda o seu território, ocupando a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, a Península do Sinai, pertencente ao Egito, além de Jerusalém Oriental, que estava sob domínio da Jordânia. A partir de 1977, com a vitória do partido Likud, de extrema-direita, a ocupação dos territórios conquistados é incentivada e mais de 120 mil colonos judeus, identificados ideologicamente com os extremistas, passam a habitar a área destinada aos palestinos.
Neste imbróglio todo, que a mídia apresenta como guerra religiosa ou racial, destaca-se a presença dos Estados Unidos no Oriente Médio, coerente com o seu propósito político-econômico na região. Na área da diplomacia, os norte-americanos apoiam Israel por um lado, inclusive pela influência interna que os judeus têm nos EUA, e de outro apoiam a Arábia Saudita, decisiva em termos petrolíferos. Deste modo, Israel é, de fato, a ponta de lança da maior potência econômica do planeta e, não por acaso, potência militar capaz de enfrentar os Estados árabes reunidos; e a Arábia Saudita é o racha estratégico que divide as nações árabes, na hipótese de conflitos bélicos na região. Basta lembrar da guerra do Golfo, contra o Iraque, em 1991.
As grandes vítimas, porém, são os palestinos, que foram e são usados de acordo com os interesses das potências da região e de seus aliados. Concentrados em sua grande maioria na Cisjordânia, eram brutalmente perseguidos pelo Rei Hussein, da Jordânia, que anexara aquela área, em 1948, sob a acusação de conspiração. Em 1970, cerca de quatro mil palestinos foram massacrados a mando do rei e a maioria dos sobreviventes teve que fugir, alojando-se no Líbano, sobretudo ao sul do país, perto da fronteira com Israel; ao tempo em que eram utilizados como mão-de-obra barata pelos israelenses — em Israel, um árabe nunca recebe um salário igual ao de um judeu; sempre será menor.
Com a invasão do Líbano por Israel, em 1982, os palestinos, que anteriormente já haviam sido massacrados pelo exército da Síria, que controlava parte do Líbano, durante a guerra civil libanesa, sofreram o que ficou conhecido como o massacre de Sabra e Chatila, no qual Israel, com a ajuda do exército do sul do Líbano (formado por cristãos libaneses), assassinou durante uma madrugada, mais de mil palestinos (na sua maioria velhos, mulheres e crianças), naqueles dois acampamentos, em Beirute, capital do Líbano, com a complacência da Síria. Neste episódio, ficou bastante claro que, ao contrário do que alguns afirmam, as guerras que acontecem no Oriente Médio vão muito além das questões religiosas. Judeus israelenses, cristãos libaneses e muçulmanos sírios massacrando palestinos. Essa ofensiva israelense resultou na fuga desesperada para a Tunísia de toda a cúpula dirigente da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), criada em 1964 e dirigida por Yasser Arafat e seu grupo Al Fatah, desde 1969.
Em 1987, precisamente em dezembro, começa um novo levante, dirigido por jovens palestinos nos territórios ocupados, descontentes com a demora dos acordos de paz e também descontentes com a própria direção da OLP. Esta revolta denominou-se de INTIFADA , sobressalto, em árabe. Suas armas não eram os tradicionais fuzis-metralhadoras AK-47, mas pedras e pedaços de paus. Apenas entre 1987 e 1992, mais de dois mil palestinos morreram; outros 120 mil — um em cada 15 habitantes — foram detidos pelo menos uma vez.
De lá para cá, outros tantos levantes aconteceram, e hoje estamos presenciando mais uma etapa desta guerra recorrente, que desde setembro já ceifou mais de duzentas vidas, a maioria de jovens palestinos. No entanto, segundo escreveu o jornalista Isaac Akcelrud, morto em 1994, no final de seu livro, O Oriente Médio, uma da fontes consultadas por nós, “os privilégios feudais (sic), os grandes negócios petrolíferos, os superlucrativos negócios da indústria bélica, os controles estratégicos, todo o complexo de exploração e dominação do Oriente Médio estará em risco no dia em que israelenses e palestinos decidirem pela ‘paz entre nós, guerra aos senhores.’” E completava: “Quando terminar a guerra atual, uma outra começará automaticamente no Oriente Médio. E nem as estrelas serão neutras.”
Fontes consultadas: além da citada,
Guerra e Paz no Oriente Médio, de Jayme Brener e Cláudio Camargo, Editora Contexto.