NARCOTRÁFICO E CAPITALISMO: DUAS FACES DE UMA SÓ MOEDA!

O problema das drogas não é simples sob nenhum aspecto de suas amplas possibilidades de abordagem. Neste artigo, tentaremos desvendar alguns de seus mistérios, sem a preocupação em dar conta de toda a questão. Tomaremos como ponto de apoio o livro “O Século do Crime”, dos jornalistas José Arbex Júnior e Cláudio Júlio Tognoli. Junto com eles, daremos uma idéia de como as máfias se estruturam em todos os continentes do mundo e lançam os seus tentáculos sobre as mais diversas áreas de interesse.

Decididamente, narcotráfico e capitalismo, mais do que excludentes, são complementares. Por mais que na aparência exista uma luta dos titãs do capitalismo contra esse comércio ilegal, há uma relação contraditória de choque e de simbiose entre os contendores, nunca evidenciada pela mídia. Se por um lado o narcotráfico forma um mundo paralelo, com leis e lógicas próprias, por outro aplica seus lucros nos mercados ávidos por capitais. É essa relação de “amor e ódio” que deve ser desmistificada.

Apesar do “esplendor” econômico de uns poucos, a realidade mundial é marcada pelo sucateamento das economias de diversos países no mundo. Uma das alternativas econômicas das muitas populações existentes é a atividade que lhes é propiciada pelo chamado “mundo do crime”. Este, além de instituir poderes onde se estabelece, organiza-se em alguns locais com toda uma estrutura previdenciária, fazendo papel de Estado. Em suma, onde já não há mais Estado, ou míngua a atuação deste, o narcotráfico coloca-se como alternativa de vida e açambarca contingentes inteiros de populações. Sigamos seus rastros.

 

A Economia das drogas

De início, é preciso destacar a importância econômica do narcotráfico no mundo. A ONU, Organização das Nações Unidas, em suas conferências de cúpula de Nápoles (novembro de 1994) e Cairo (maio de 1995), estimava a soma movimentada anualmente pelas máfias entre U$ 750 bilhões e U$ 900 bilhões. Mais que todo o dinheiro gerado pela indústria do petróleo no mundo.

Tratemos então de penetrar no que tem de mais essencial, ou seja, como a atuação desses grupos criminosos se articula com a globalidade da economia do planeta, justamente a partir da importância econômica, política e social desse “setor” da economia capitalista, que cresce a olhos vistos e engole estados inteiros nesta conjuntura de final de século.

 

Um setor da economia capitalista?

Não é à toa que a ONU se preocupa cada vez mais com a dimensão atingida pelas atividades ditas criminosas, que hoje desafia “a própria noção de uma ordem jurídica internacional reguladora da relação entre os estados”. As cifras geradas, superiores aos PIBs da maioria dos países, colocam o problema não apenas sob o aspecto moral ou de polícia, mas ganham contornos de questões financeiras e geopolíticas de relevada importância.

Tomemos algumas palavras dos autores atrás citados para revelar as atividades trabalhadas por esse mundo clandestino, não submetido a qualquer lei ou regulamentação dos ditos estados democráticos, cujos negócios “... incluem o comércio de drogas, armas (eventualmente, até nucleares), tecnologias sofisticadas obtidas mediante espionagem industrial ou compra de segredo, de escravas brancas e crianças, de órgãos humanos utilizados em transplantes, de transporte, passagens e vistos de entrada falsificados para imigrantes ilegais, além de práticas ‘tradicionais’ de suborno de autoridades e políticos, extorsão, exploração da prostituição adulta e infantil e controle de cidades ou regiões inteiras com base na força e no terror impostos por quadrilhas bem armadas e organizadas segundo uma estrutura paramilitar”.

A globalização econômica significou, também, a globalização das máfias e do narcotráfico. Desde o início da adoção das práticas neoliberais (Inglaterra-1979, com Margareth Teatcher; Estados Unidos-1980, com Ronald Reagan), o mundo passou a conhecer a chamada “desregulamentação da economia”. É a possibilidade de uma fluidez muito maior de transações econômicas e financeiras, ajudadas substancialmente pela revolução tecnológica, que possibilita o trânsito de grandes volumes de capitais via redes de computadores. Foi também essa conjuntura que propiciou a dita mundialização do crime, atuando prioritariamente nos “paraísos financeiros”, onde a origem do dinheiro não tem a mínima importância.

Muito do dinheiro que gira vadio pelo mundo, buscando ganhos fáceis em bolsas de valores e outras transações de caráter especulativo, tem sua origem nas atividades acima citadas. A injeção de dinheiro pelas máfias nos mercados de capitais sustenta diversas das corporações internacionais e “respeitáveis organizações de fachada limpa”. Além disso, vários dos países ditos “emergentes”, como o Brasil, Chile, Argentina, México, Rússia, etc., esperam ansiosamente a entrada desse tipo de capital. É lógico que nem todo capital especulativo provém de atividades criminosas, mas não há nenhum mecanismo de aferição para separar uma coisa de outra. É dessa maneira que o “dinheiro sujo” é transformado no bom e festejado hot-money. É essa a lógica que nos permite perceber a “interpenetração crescente entre o dinheiro das máfias e o mercado financeiro institucional. Podemos afirmar, com tranqüilidade, que se todas as máfias fossem subitamente destruídas, isso causaria uma catástrofe no mercado de valores mundial”. É por tudo isso que o discurso moral faz parte de um grande jogo de cena da hipocrisia capitalista mundializada.

 

Um mundo em ruínas. Espaço para narcotraficantes...

O narcotráfico cresce nas ruínas da globalização e da economia formal. Tomemos como exemplo o caso da Nigéria, na África. Lagos, sua capital, é também chamada “capital do crime, no continente africano”. Como isso se deu e se alastra? Acontece que o petróleo, principal fonte de riqueza da Nigéria, desde os anos 80 teve os seus preços em queda no mercado internacional. O encolhimento da classe média e alta nigeriana foi rápido e as alternativas econômicas não existiam, dado o conhecido sucateamento não apenas daquele país, mas de quase todo o continente. Restavam, para um sem número de estudantes e profissionais, a pobreza e a miséria. Resultado: adesão ao narcotráfico e formação de uma elite financeira vinculada ao crime organizado.

Não difere em essência, do exemplo citado, o caso de outros países africanos que viviam de exportação de matérias-primas, como o cacau, o café, o cobre, e também sofreram abalos com as baixas cotações desses produtos. As máfias no mundo, hoje, na esteira da miséria produzida por um sistema que persiste na sua lógica de exclusão, funcionam como “pólo de atração para uma juventude desesperada e sem destino”. Numa outra passagem eloqüente do texto, os autores vaticinam: “... É fácil imaginar o poder corruptor das máfias africanas, quando se sabe que militares, políticos e figuras públicas influentes recebem salários miseráveis de estados falidos. Cria-se, assim, um quadro propício à multiplicação de ‘narcocracias’ (traficantes que assumem diretamente o governo de seu país)”. Se alargarmos a nossa visão para outras regiões do planeta, inclusive nossos vizinhos latinos, veremos que o problema não é tão fácil de resolver, menos ainda com uma simples invasão de “abnegados e heróicos” norte-americanos.

Muitos dos narcotraficantes, nada ingênuos, elaboram um discurso ideológico, visando atingir os mais pobres e os mais jovens. Alguns deles colocam-se claramente como “alternativa de organização e luta contra um Estado opressor”. Não é à toa o prestígio de grupos de traficantes nos morros cariocas, que patrocinam inclusive “fundos de assistência social”, mais eficazes que o sistema previdenciário do governo. Quando do julgamento do general Noriega, em Miami, após a invasão do Panamá, o traficante Carlos Lehder soltou esta frase emblemática: “Nós, povos pobres da América Latina, temos sido explorados durante anos pelo imperialismo ianque. Mas a nossa vingança está chegando: a cocaína é a nossa vingança, é a bomba atômica da América Latina”. Não obstante a demagogia e o ufanismo professados, a frase revela a consciência de um discurso que tenta convencer aos excluídos do sistema de circulação mundial de mercadorias, das possibilidades que restaram de vencer o opressor.

 

Êxodos: os refugiados no mundo!

Vimos, há pouco tempo, a publicação por Sebastião Salgado do livro Êxodos. As imagens tocantes que ali se vêem ganham respaldo nos seguintes dados das Nações Unidas: em 1975, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) “cuidava de 2,5 milhões de pessoas que haviam fugido dos seus países natais. O montante chegou a 17 milhões de pessoas em 1991, subiu para 23 milhões de pessoas em 1993 e chegou a 27 milhões no início de 1995”, um crescimento de quase mil por cento em vinte anos. As próprias Nações Unidas admitem que o aumento considerável de refugiados decorre “da desintegração de estados que, após a Guerra Fria, não desfrutaram do apoio e proteção das nações mais poderosas do mundo”.

São esses mesmos refugiados que têm sido, ultimamente, os principais recrutados para os papéis de “mulas”, que fazem o transporte das drogas entre diversos países do mundo. Refugiados e imigrantes ilegais não têm, em geral, apoio de ninguém. É nos tentáculos das máfias que muitos têm encontrado guarida, uma vez que as organizações mafiosas, além de contar com uma “força de trabalho” desesperada e disposta a todo e qualquer risco, ainda conta com a vantagem de descaracterizar a origem do produto em caso de apreensões, com pessoas de outras nacionalidades.

 

O Brasil e o narcotráfico

Desde 1993 o Brasil começou a figurar como um dos líderes do narcotráfico. O Departamento de Estado dos Estados Unidos coordena a elaboração do Relatório Anual sobre o Controle Internacional de Narcóticos. Foi nesse documento que o Brasil ganhou destaque como “o maior canal de distribuição mundial da cocaína produzida pelos cartéis de Cali e de Medellín, da Colômbia”. Já aqui se associava a situação degradante da economia brasileira ao crescimento das atividades criminosas. Era a falência econômica do país, após o vendaval do Plano Collor, o principal responsável pelo crescimento do narcotráfico.

O Departamento de Estado americano, em documento reservado, destaca: “O Brasil emergiu em 1995 como a mais significativa rota de trânsito para carregamentos aéreos de folhas de coca produzidas no Peru e destinadas para laboratórios na Colômbia. O governo começou a demonstrar estar ciente da vulnerabilidade do Brasil para os traficantes colombianos, que estão usando o país como a maior rota de trânsito, centro potencial de processamento de cocaína e núcleo de lavagem de dinheiro”. 

O papel de destaque do Brasil na “narcogeopolítica” tem razões bem palpáveis: cerca de U$ 200 bilhões são produzidos em cocaína anualmente pelos cartéis colombianos; destes, os Estados Unidos são ponto de chegada para 243 toneladas, das 270 anualmente produzidas; o crime organizado lava mais de U$ 140 bilhões no mercado dos Estados Unidos; o Brasil é a principal rota desse transporte, e também para a Europa. Mas este país não tem um papel de mero espectador do bonde que passa em suas plagas. Cresceu e “profissionalizou-se”.

As nossas dimensões territoriais e um moderno sistema de comunicações têm funcionado como fatores de atração para as organizações do tráfico internacional. O Brasil tem também as suas máfias internas, sendo os “chefões”, muitos deles, “respeitáveis empresários” que usam suas empresas como fachada para camuflar a principal atividade, ligada ao narcotráfico. O chamado “Cartel de São Paulo”, composto por 18 desses chefões, “comandava a distribuição de drogas no país e do Brasil para o resto do mundo”. É assim que se articula, por exemplo, o contato dos traficantes brasileiros com a máfia nigeriana, “que leva a cocaína dos cartéis colombianos, via Brasil, para o Extremo Oriente — onde é trocada por heroína, e a partir da África do Sul vai para território da ex-URSS,  para ser comercializada por armamentos e material nuclear”. Vemos, claramente, o nível de articulação a que chegou o crime mundializado. E o Brasil é peça fundamental nessa engrenagem.

 

A Rússia e suas máfias

Tomemos o caso da Rússia como exemplar para o nascimento de uma máfia. Muito se falou a respeito do fim da URSS associando o fato à derrota final do comunismo. A verdade é que há algumas décadas não existia mais o que ainda chamavam de socialismo, ou comunismo, ou socialismo real, etc. Há muito que uma burocracia corrompida e corruptora tinha-se apossado do aparelho de Estado soviético, oprimia, reprimia e explorava o povo russo. Era a corrupção estatal de uma burguesia de Estado, que gerenciava os seus problemas internos com mão-de-ferro e que, externamente, disputou uma longa queda de braços com os poderosos americanos, na chamada Guerra Fria.

Não é por acaso que o poder das organizações mafiosas vem justamente de dentro do aparelho estatal corrompido. As principais máfias em atuação na Rússia foram constituídas “por antigos funcionários do Estado soviético e do Partido Comunista”. Eram pessoas que, bem antes do desmonte da URSS, já atuavam nas sombras do aparelho burocrático e tinham o poder de burlar as leis. As máfias russas, portanto, já existiam antes dos anos 90. A partir daí passaram a agir de uma maneira mais abertamente corrupta.

A pedra de toque da corrupção foi o congelamento oficial de preços. Como no “nosso” Plano Cruzado, veio à tona a figura do ágio. Com ele qualquer produto poderia aparecer. Se oficialmente a inflação era zero, na realidade, o custo de vida tornava-se angustiante e insuportável. Enormes filas para comprar qualquer produto básico. As quadrilhas que exploravam o ágio se formavam no interior do aparelho estatal e do PC soviético, com participação de pequenos funcionários, fiscais do governo, etc.

Estatísticas divulgadas pelo Instituto de Pesquisas do Ministério do Interior da ex-União Soviética dão conta de que, em 1985, 30% do que os funcionários públicos soviéticos ganhavam era produto de subornos e propinas. Em 1991, a corrupção atingia metade dos seus ganhos. As somas movimentadas pelas máfias cresceram absurdamente. De 1989 até 1991 houve um salto de 1 bilhão para 130 bilhões de rublos.

Em pleno turbilhão da crise, Boris Ieltsin deu início ao processo de privatização na Rússia. Podia-se comprar de tudo, mas apenas as grandes máfias, muitas delas associadas ao capital internacional, tinham dinheiro para entrar de cabeça na grande feira. Foi assim que, em pouco tempo, “grupos mafiosos colocaram sob seu controle algo entre 50% e 80% de todas as lojas, armazéns, depósitos, hotéis e empresas fornecedoras de serviços de Moscou”. Em 1995, a máfia russa já controlava cerca de 40 mil empresas privatizadas, com um faturamento em torno de U$ 300 bilhões. A atividade dos mafiosos se profissionalizou e diversificou, e muitas dessas empresas passaram a servir de fachada para estreitar laços com grupos mafiosos de outros países.

O caos jurídico facilitou a ação dos grupos criminosos: “a Rússia teve que praticamente ‘inventar’, a toque de caixa, um corpo de leis regulamentando relações de mercado, inexistentes sob o regime soviético. É claro, também, que o vácuo jurídico-institucional resultou, na pratica, na aplicação da lei do mais forte, e o mais forte eram as máfias”.  Há indícios graves de que uma parte do arsenal nuclear russo é hoje objeto passível de comércio entre grupos mafiosos. Acusações do Greenpeace, por exemplo, revelam que por U$ 250 mil se compra uma ogiva nuclear de porte médio na Rússia. Calcula-se que ainda hoje, existem entre 15 a 30 mil dessas ogivas no país, que são guardadas por oficiais e soldados mal pagos.

Nos dias atuais, o que se vê na Praça do Kremlin, diante do mausoléu de Lênin, é o desfile incessante de prostitutas, soldados e mafiosos, numa estranha ironia entre passado e presente.

 

A lavagem do dinheiro

Passemos um breve olhar num problema que é por demais sério e que envolve um sem número de gente muito boa e respeitável. Em 1982, o FMI calculava que as finanças mundiais perdiam cerca de U$ 100 bilhões a cada ano, por conta dos mecanismos de lavagem de dinheiro pelas máfias. Em 1994, o buraco já era estimado em algo em torno de U$ 700 bilhões a U$ 1 trilhão.

Boa parte do dinheiro envolvido nas transações de drogas não é e nem pode ser pago em cash, pelo simples fato de que as cédulas pesam mais do que o “produto”, a cocaína. Arbex e Tognolli informam que uma cédula de U$ 10,00 chega a pesar mais de trinta vezes que a coca, num carregamento grande. A lavagem é executada de muitas maneiras, inclusive com contas de “laranjas” nos mais diversos bancos, mesmo aqueles que estão muito próximos de nós. Ordens de pagamentos, cheques de viagem, tudo ganha um aspecto respeitável e o dinheiro viaja tranqüilamente nos poros do sistema financeiro mundializado, privilegiando paraísos fiscais como as Antilhas holandesas, as ilhas Caiman, Seychelles, Barbados, Hong Kong, Luxemburgo, Liechtenstein, as ilhas Channel, dentre outros tantos paraísos dos diversos continentes.

 

Algumas conclusões...

O mundo capitalista nunca teve, como na atualidade, tanta capacidade de produzir riquezas. Sabemos que os mecanismos de produção e reprodução dessa riqueza levam a uma concentração cada vez maior dela. Não é por acaso que vemos as grandes fusões acontecendo e concentrando mais e mais capital. Também não por acaso, todas essas fusões, e privatizações, e enxugamentos de empresas, e novas tecnologias, e novos métodos de gestão, são mecanismos poupadores de mão-de-obra. Leia-se: mecanismo de desempregar gente. Se para os países de ponta do desenvolvimento econômico a miséria de suas populações cresce sem cessar, o que não acontece com os países marginalizados da globalização?

Foi esse o vácuo encontrado pelos narcotraficantes para crescer. As economias arruinadas de muitos países dependem da droga ou das atividades criminosas de grupos cada vez mais fortes. Criou-se uma relação de dependência econômica à cocaína latino-americana em países, por exemplo, como a Bolívia, onde um em cada três trabalhadores ganha salários diretamente de narcotraficantes ou de setores derivados do narcotráfico, segundo dados do professor Osvaldo Coggiola, em matéria “O comércio de drogas hoje”.

A sociedade americana, como maior consumidora da cocaína do mundo, reivindica-se como maior prejudicada. São bilhões de dólares gastos no combate aos traficantes, como na atual intervenção na Colômbia; aumento de criminalidade ligado ao consumo de drogas; sem falar nas quedas de produtividade de trabalhadores; dinheiro gasto pelo Estado na reabilitação de viciados, etc. Mas isso é apenas parte da verdade, pois numerosos interesses econômicos tornam ainda mais complexa a situação. As guerras externas ao narcotráfico resguardam também os interesses dos “narcoprodutores” internos dos EUA, o que diminui a relação desvantajosa de comércio hoje, em que os norte-americanos perdem algumas centenas de bilhões de dólares. Só assim se entende tanto interesse em combater na Colômbia ou em qualquer lugar do planeta.

Mas isso ainda não é tudo. Como se sabe, os Estados Unidos buscam, a cada momento, mover suas peças no grande jogo do xadrez geopolítico, a fim de garantir por muito mais tempo seus interesses imperialistas. Arquiteta cada lance para por em xeque os seus adversários. Precisa, para isso, de um inimigo que seja considerado realmente ameaçador, para poder agir mais livremente no tabuleiro. Se o inimigo não pode ser mais o temido “comunismo”, dado o fim da Guerra Fria e o xeque-mate sofrido pela ex-União Soviética e as sociedades burocratizadas do leste europeu, é necessário àquele país, para manter a sua estratégia de dominação unipolar, eleger a cada tempo um inimigo e convencer o mundo de sua necessidade de combate. Foi assim com Saddam Hussein, no Iraque, e com Milosevic, na Iugoslávia. Na falta de um inimigo “melhor”, o combate ao narcotráfico é a “bola da vez”, com todo o discurso moral, hipócrita e cínico do império americano.