“GLOBALIZAÇÃO”  OU  TOTALIZAÇÃO PLANETÁRIA  DO  MODO  DE  PRODUÇÃO  CAPITALISTA?

 

À medida que a crise da ordem do capital avança à escala planetária, termos e mais termos são lançados no jogo de oferta e procura do mercado ideológico: “ecologia”, “feminismo”, “cidadania”, entre muitos outros, são apenas alguns desses termos que, da maneira como são jogados, causam mais confusão do que esclarecimento. São termos cunhados sem o apoio de qualquer categoria científica, unilateralizados, destorcidos, incompletos, imprecisos, para exatamente deixarem em aberto a possibilidade da mais completa fetichização e manipulação ideológica. Ninguém, que seja dotado de um mínimo de inteligência e sensibilidade, pode ser contra a luta pela defesa da natureza, da mulher, das minorias, dos direitos das pessoas—a começar pelo direito à vida e ao trabalho; só que esses reclamos, para não se colocarem como apelos ilusórios, mas reivindicações legítimas,deveriam passar pelo crivo de uma definição científica, a começar por uma compreensão do significado que possuem no contexto da relação-capital e, conseqüentemente, também de classe, no interior do modo de produção capitalista num estágio de suprema mundialização.

É exatamente o que ocorre também com o termo “globalização”, de resto já totalmente banalizado pelo uso indiscriminado que a mídia burguesa dele faz. Termo deliberadamente impreciso, ambíguo e unilateral, no máximo recebe o significado de totalização e instantaneidade planetárias de padrões de tecnologia, informação, fluxos financeiros e cultura. Depois dessa definição, que se caracteriza pela vacuidade, nenhum passo a mais.

O termo “globalização” só poderia portar um significado científico, para exatamente possuir um estatuto político eficaz, se ele pudesse expressar o grau de mundialização que a ordem do capital atingiu, depois de uma evolução que passou por diversos estágios, ao alcançar o atual período de imperialismo em crise que o tem caracterizado, sobretudo desde os anos 70 até o momento presente. Mas, para isto, o termo “globalização” teria de abandonar toda a mistificação de que é investido.

Poderíamos aceitar o termo, mas só no seguinte sentido: como reforço de expressão da dominação definitiva e global—a saber, planetária—do modo de produção capitalista, sobre todas as demais formas de organização da produção e de sociabilidade, na sua mais madura evolução imperialista. Mas, então, teríamos de completar a definição, como pretendemos fazer, em linhas muito breves, mas essenciais, logo a seguir.

Depois da exportação de mercadorias e capitais, os países avançados, nos quais emergiram os monopólios, oligopólios e cartéis, passaram a difundir no planeta, cada vez mais em regime de associação com as burguesias nacionais dos chamados países atrasados, as formas e as relações de produção capitalistas.Este primeiro impulso, nascido da fusão do capital bancário com o capital industrial, que exatamente deu caráter à fase imperialista da ordem do capital, teve prosseguimento após a Segunda Guerra Mundial, agora com instrumentos econômicos, políticos e militares—como o FMI, o GATT, o BIRD, a OTAN e a própria ONU. A base sócio-econômica deste impulso foi a forma fordista de organizar a produção, enquanto que a sua base política de sustentação esteve sempre a cargo de uma ação combinada de stalinismo, reformismo e social-democracia. Essas concepções entorpeceram a luta de classes, do ponto de vista do proletariado, e abriram espaço para a fase de re-estruturação produtiva e implantação do neoliberalismo, que passaram a vigorar a partir da grande crise capitalista, acompanhada de uma aguda luta de classes, dos anos 70. Dos anos 50 aos anos 70, o capitalismo praticamente concluiu o seu domínio absoluto sobre todas as demais formas de produção e de sociabilidade pré-capitalistas, deixando destas apenas resíduos e uma extensa situação de sucateamento.

Com o naufrágio da URSS e demais formas de capitalismo de Estado do Leste Europeu, cai por terra a chamada “Guerra Fria” e os EUA podem então passar a desfrutar, de longe seguida por algumas outras potências imperialistas—como Alemanha, Japão e Inglaterra—, a condição de centro das atividades e decisões econômicas, políticas e militares do imperialismo no mundo.

Mas as grandes transformações havidas a partir da crise dos anos 70—sintetizadas pela reestruturação e o neoliberalismo—, que trouxeram o desemprego e o rebaixamento em massa dos salários, trouxeram também as crises recorrentes de superprodução, em conseqüência destas também as crises monetárias, financeiras e cambiais, um imenso exército industrial de reserva e a multiplicação da acumulação monetária feita com capital fictício. São estas transformações, que se desenvolveram nas últimas três décadas, que deixaram com o capitalismo, numa perspectiva de longo prazo, uma situação de contração regular e sistemática que, se minimizada pela ascensão da economia dos EUA em alguns anos durante a década de 90, tendem a se agravar com a crise econômico-financeira que exatamente agora tem início no país central do imperialismo “globalizado”.

A ordem mundial do capital encontra, desta maneira, no momento atual, as barreiras que ela mesma criou para o prosseguimento da reprodução ampliada do capital no espaço planetário. Restou uma tendência recorrente à queda da taxa de lucro, dos investimentos, da produção e do consumo, e a pauperização e o sucateamento de regiões, países e populações inteiras—as quais são também dizimadas pelas guerras de extermínio, já que o capitalismo já não pode manter esses países e essas populações nos limites de um mínimo de condições de subsistência. Sem prejuízo de algumas leves e localizadas retomadas da produção neste ou naquele país ou região, pode-se falar, com grande segurança, que a ordem mundial do capital, agora “globalizada”, já não tem mais nada a oferecer á humanidade—e que, portanto, vê aproximar-se a hora de sua substituição por uma outra formação, montada sobre outros pressupostos, uma formação que deverá nascer de uma luta implacável de trabalhadores, desempregados e demais segmentos postos à margem do processo de trabalho, contra o capital, suas premissas econômicas, políticas e sociais, vale dizer, sua estrutura e sua superestrutura.

Só então se poderá falar, efetivamente, de solução dos problemas sociais, ecológicos, das minorias e de todos os problemas que hoje afligem, com uma agudeza inusitada, mais de três quartos da população do globo. A “globalização” da ordem do capital, que trouxe a “globalização” de suas formas e relações, trouxe também a “globalização” de suas crises e, por fim, a respectiva “globalização” das formas de exploração do trabalho, com seus desdobramentos, e, pari passu, a “globalização” das condições de luta anti-capitalista, na base de situações e crises revolucionárias que tendem a se multiplicar para além de países e regiões isoladas, vale dizer, numa amplitude internacional—portanto, também, internacionalista. Estas bases sociais, que estão sendo dadas neste momento, só precisam ultrapassar um grande obstáculo: a crise do movimento revolucionário—subjetivo, consciente—do trabalho, iniciada durante as décadas de 20 e 30 do século que se foi, mas que agora reencontram mais plenas condições de reaparecimento e desenvolvimento da mesma forma mundializado. A partir deste exato momento só duas perspectivas se tornam visíveis: uma delas é o adiamento da emergência de um novo salto na História, pela implantação da barbárie imperialista; e outra é a ultrapassagem deste perigo, através da luta de trabalhadores, desempregados e oprimidos em geral, pelo salto—salto que só tem e só pode ter um único nome: socialismo.