ELEIÇÕES
MUNICIPAIS
A Vitória do
PARTIDO... e como ficam OS
TRABALHADORES?
As últimas eleições
do milênio foram marcadas por uma inegável manifestação de descontentamento
com a atual política econômica do governo FHC. As fragorosas derrotas dos
partidos aliados, sobretudo nos grandes centros urbanos, deram uma demonstração
inequívoca de que as principais mazelas que acometem a quase totalidade do povo
trabalhador (vide os alarmantes índices de desemprego, os dados acerca do
aumento da criminalidade, os números públicos da corrupção, o total descaso
para com a educação e saúde públicas, etc...) serviram como referência para
balizar a definição daqueles que se dispuseram a comparecer às urnas nesse último
pleito.
O contraponto da derrota dos
partidos governistas foi, evidentemente, a avanço dos partidos de oposição,
notadamente do “Partido dos Trabalhadores — PT”. Juntos, PT, PSB,PPS, PDT
e PC do B, elegeram um total de 29 prefeitos dentre as 62 principais cidades do
país, das quais, só o PT sagrou-se vitorioso em 17 dessas cidades, entre
capitais e cidades com mais de 200 mil eleitores.[1] Assim, fechadas as urnas,
os petistas saltaram das 105 atuais prefeituras para 187 novos prefeitos eleitos
em todo o país, representando um crescimento de 78% em relação aos atuais
mandatos.
Apesar dos diversos veículos
de comunicação de massa apressarem-se em descaracterizar as eleições
municipais enquanto um instrumento válido para aferir a satisfação popular
para com o governo federal, ficou demonstrado, pelo menos nas grandes cidades do
país, que não são mais as questões ditas “paroquiais”, que norteiam a
definição do eleitor. Cada vez mais, as políticas locais estão, sobre a ótica
de quem vota, diretamente relacionadas com as questões mais candentes do cenário
nacional. Sendo assim, certamente os resultados agora verificados vão jogar
luzes em direção às eleições majoritárias de 2002. E é exatamente isso
que preocupa tanto os pré-candidatos governistas quanto os da oposição.
Certamente, a “vitória”
dos partidos de oposição os coloca em melhores condições para pleitear o
assento principal no Palácio do Planalto, haja vista que, boa parte do
eleitorado, nas maiores cidades do país, consagrou nas urnas um
“voto-de-confiança” naqueles que se mostraram contrários aos atuais
gestores do Estado brasileiro.
“O MODO PETISTA DE
GOVERNAR”
Passada a euforia de alguns
com a rejeição popular ao governo FHC e seus aliados, cabe-nos avaliar o que,
de fato, representa para a organização dos trabalhadores a chegada à direção
do poder executivo de alguns “companheiros” que tiveram a sua origem política
exatamente nos movimentos sociais e populares organizados. Vale ressaltar que
essa tem sido um preocupação recorrente mesmo dentro dos quadros do PT, onde,
entre uma comemoração e outra, sempre surge uma certa angústia a respeito do
que podemos esperar pela frente.
Alguns exemplos já podem ser
citados, como as primeiras experiências vivenciadas pelas administrações
“de esquerda” que vicejaram em
momentos anteriores. A da Luíza Erundina em São Paulo, de 1988 a 1992,
demonstrou aos rodoviários da CMTU que a gestão do Estado capitalista traz
consigo a necessidade de fazer valer os interesses de quem detém o capital.
Durante a greve da categoria, a Prefeitura Municipal, além de convocar a polícia
para reprimir os manifestantes, perseguiu e
demitiu lideranças do movimento, e negou-se a negociar com a categoria em
greve. Alguma diferença entre o comportamento da “companheira” e o do
Maluf, do Pitta, ou do ACM?
O governo do Guilherme
Menezes, em Vitória da Conquista, na Bahia, em seu primeiro mandato, a despeito
da sua atual reeleição, também deu provas aos professores municipais de que
os seus anseios classistas não podem resumir-se à eleição do seu prefeito.
Durante a greve, que durou cerca de 30 dias, a administração municipal
recusou-se a negociar a pauta de reivindicações, além de atribuir aos
professores em greve a pecha de “baderneiros e agitadores”, que queriam
“desestabilizar o governo democraticamente eleito”.
Para não ficarmos somente
nos exemplos já apontados, o atual prefeito eleito do Recife (PE), João Paulo
Lins e Silva (PT), no dia seguinte ao da sua eleição, compareceu a assembléia
dos policiais militares em greve no Estado e, após ser saudado pelos
“policiais grevistas”, solicitou deles o imediato retorno ao trabalho, uma
vez que, segundo o “companheiro”, “esse tipo de manifestação, quando
prolongada, se desgasta e prejudica todos os envolvidos”. Mesmo
reconhecendo a autoridade daquele que lhes falou, os policiais vaiaram a sua
intervenção, muito embora tenham suspenso o movimento logo em seguida.[2]
A atual prefeita eleita de São Paulo, “companheira” Marta Suplicy, também já começou a dar mostras do que vem a ser a sua administração: depois de ver rejeitado o seu convite para que o PSDB compusesse o seu governo, a futura prefeita divulgou o primeiro nome do seu secretariado: nada mais, nada menos do que o Sr. João Sayad, ex-banqueiro, ex-ministro do governo Sarney, que ocupará a pasta de finanças do governo petista na capital paulista. Tudo isso sem falar em algumas composições em nível nacional, para alguns surpreendentes, com prefeito do PT e vice do PFL, e vice-versa.
A partir de situações como
essas, ficamos a nos perguntar: o que representa para aqueles que vivem do seu
próprio trabalho, esse tão propalado “modo petista de governar”?
O REVÉS NAS ADMINISTRAÇÕES
DO PT
Na contra-mão da euforia da
vitória em vários novos rincões, o Partido dos Trabalhadores também
contabilizou, nesse último sufrágio, números não muito auspiciosos: dos 105
municípios que atualmente administra, o partido foi derrotado em 49 cidades, ou
seja, não conseguiu eleger seus candidatos novamente
em nada menos do que 47% dos municípios em que hoje é governo.
Essa derrota, embora ainda
tenha deixado o partido acima da média nacional dos demais (cerca de 40%), vai
de encontro ao principal discurso da propaganda eleitoral: o de que o PT é bom
de governo, conforme destacou o próprio coordenador geral do Grupo de Trabalho
de Eleições do partido, o deputado federal João Paulo Cunha (SP), em
entrevista à Folha de São Paulo, em 05.11.2000: “Nós que dizemos que o
PT é bom de governo, não podemos perder em quase metade de nossas prefeituras.
É um problema grave, que tem de ser corrigido”.
Números como esses podem ser
utilizados para análises sobre os mais diversos prismas, de acordo com o
interesse de cada um. Os partidos governistas, derrotados em seu conjunto,
utilizam-se disso para tentar descaracterizar a imagem do partido frente aos
mais incautos, recorrendo aos mais diversos recursos ideológicos tipicamente
eleitoreiros. A nós, contudo, cabe analisar a resposta que a população e mais
propriamente os trabalhadores deram à insuficiência dos programas do PT para
solucionar os seus problemas e demandas sociais, ligados diretamente a condição
da “classe-que-vive-do-trabalho”.
Nós da Oposição Operária,
que dedicamos uma edição especial do “Germinal”, (a de número 5),
para analisar as eleições de outubro, manifestamos a nossa posição em defesa
do voto nulo, exatamente por considerar que o espaço de intervenção
institucional proporcionado pela participação na gestão do Estado
capitalista, quer seja no executivo ou mesmo no parlamento, muito diferente de
aproximar os trabalhadores do controle do Estado, afasta-nos da construção de
um projeto nosso de sociedade ligado aos interesses
tanto imediatos quanto futuros de combate à exploração burguesa e seu
Estado, erigido exatamente para fazer com que sejam cumpridos os pressupostos da
valorização e realização do seu capital.
Para nós, que não dispomos do controle dos meios de produção, acreditamos que muito mais interessa, combater a burguesia e o seu Estado, do que nos digladiarmos com os mais diversos representantes burgueses, em busca do título de melhor administrador dos conflitos e demandas sociais, geradas a partir da disputa de interesses ontologicamente contraditórios e que invariavelmente são encaminhados, pela via institucional, para tutela do Estado.
O QUE ESPERAR DAQUI POR
DIANTE?
É inconteste que o
crescimento dos partidos de oposição vai implicar uma série de rearticulações
em torno da disputa pelo controle dos aparatos do Estado em suas mais diversas
esferas. Desde já estão abertas as comportas para que se dê vazão às mais
variadas especulações em torno das eleições de 2002.
O resultado das recentes eleições
municipais credibilizaram as oposições para que se apresentem enquanto
alternativa viável e mais do que isso, oportuna, para gerir “a coisa pública”
em um momento tão conturbado da conjuntura nacional, quer seja no âmbito econômico,
político e/ou social. Ninguém melhor do que um social-democrata, de origem
trabalhadora, para conter os reclames daqueles que não se contentam com os
constantes noticiários dos telejornais de que a economia dá sinais de
reaquecimento, de que os investimentos na área social são maiores agora, ou
mesmo aqueles que dão conta de que poderíamos estar ainda pior
— vide os palestinos, os africanos, os afegãos, os timorenses, ou
mesmo “los hermanos”
argentinos, etc...
O que fica claro para nós,
é que independente de quem está no controle do Estado capitalista, quem
quer que seja o seu gestor, qualquer que seja a sua administração, para os
trabalhadores o que se apresenta é uma conjuntura de maior arrocho, de maior
exploração, de mais desemprego, de mais violência, de maior repressão e,
como conseqüência, de maior combate às suas “insurreições” e às suas
lutas de resistência.
Assim, com efeito, resta-nos
buscar formas de organização autônomas, livres e independentes das ingerências
da burguesia e dos seus representantes no Estado, que sejam capazes de suplantar
o condicionamento institucional que canaliza todas as suas insatisfações para
dentro das esferas oficiais, limitando a intervenção subjetiva dos
trabalhadores por dentro dos aparatos e aparelhos do Estado burguês.