UM TOQUE CÍNICO E EXTRAVAGANTE DA BURGUESIA
Enquanto toda a imprensa está há décadas à caça de corruptos e corruptores nas diversas esferas do Estado, principalmente nas hostes federais, a burguesia, através de um desses órgãos de imprensa, que às vezes funciona como porta-voz oficioso de seus interesses, dá-se ao luxo de ver publicada uma matéria sobre alguns dos ricaços deste país. Apesar da dita matéria ter sido publicada pela Revista Veja, na edição nº 1657, de 12 de julho de 2000, não podemos perder a ocasião de comentá-la e avaliá-la à luz da realidade nacional e mundial (vide, por exemplo, as matérias sobre o continente africano e sobre os presídios no Brasil).
Em outros tempos, isso poderia ser mostrado como "pujança" da economia brasileira no cenário internacional. Porém, em lugar disso, o que ocorre - e disso bem sabemos -, é uma crise estrutural e financeira do capitalismo brasileiro, que vem gerar outras tantas crises menores e desdobráveis por todo o tecido social. Este, ainda por cima, parece por demais frágil para suportar as medidas e tentativas de "contenção" da crise. Apesar de todas as dificuldades que nos impõe uma realidade massacrante, o que parece é que o sentimento que possui parcela da burguesia, ou de quem usufrui de suas benesses, é o de não estar dando a mínima importância para a crise social por que passa o país. Assim, vivem toda sorte de mordomias e esnobamento que lhe é propícia.
Os dados que nos trás a referida revista, tida por muitos como instrumento "altamente conceituado" para análise da conjuntura política e econômica da sociedade brasileira, não são apenas de caráter revelador, mas também vêm-nos mostrar o verdadeiro lado cínico e debochado da burguesia brasileira. Tudo isso num momento em que o desemprego, a miséria, a fome, a corrupção, o arrocho salarial, a falta de liberdade de organização e manifestação por parte dos trabalhadores - o cacetete antidemocrático ou "democrático", como querem alguns, ainda persiste. Mas, passemos ao artigo da Veja.
RICOS, MUITO RICOS, POUCOS RICOS...
Um levantamento da Receita Federal revela quantos são, quanto ganham e como gastam os burgueses brasileiros - um detalhe: aquela burguesia que paga impostos, pois a que não paga, a que sonega, não está computada nos dados. Não poderia ser diferente, é óbvio. O levantamento coloca o seguinte:
Entre os que detêm uma renda superior a meio milhão de reais anuais estão 237 tabeliães, 61 funcionários públicos aposentados, 20 jornalistas, 14 professores universitários e 1 delegado de polícia. Depreende-se, dessas últimas informações, o quanto os setores da burocracia do Estado estão interferindo diretamente na condução política e ideológica da máquina administrativa, devido à sua posição social na participação da renda nacional. Mas os dados não param por aí. Além dos já citados, também os seguintes atingem a quantia de mais de R$ 500.000 por ano: 697 diretores de empresas, 205 serventuários da justiça, 193 advogados, 177 engenheiros, 110 proprietários de imóveis, 98 administradores, 83 economistas, 81 comerciantes, 76 membros do poder legislativo, 57 industriais, 55 bancários e economiários, 53 médicos, 47 donos de estabelecimentos agrícolas, 41 donos de empresas de serviços, 37 atletas profissionais e técnicos de desportos, 32 gerentes, 26 aposentados (exceto funcionários públicos), 23 despachantes, 15 diretores de escola, 15 publicitários, 13 membros do poder judiciário, 13 servidores públicos federais, 8 contadores, 7 membros do poder executivo, 6 pensionistas, 6 procuradores, 4 servidores municipais, 3 analistas de sistemas, 3 odontólogos, 3 servidores públicos estaduais, 1 oficial das forças armadas.
Como vimos, pouquíssima gente se apropriando de parte significativa da riqueza social, ou melhor, do trabalho social que, por sua vez, sofre altos índices de exploração dentro de qualquer economia capitalista, ainda mais numa economia que está entre as dez maiores do planeta. Somos, pois, uma população de aproximadamente 165 milhões de habitantes, no entanto, a riqueza social está concentrada nas mãos de uma minoria irrisória de menos de 3 mil pessoas, que sejam elas burguesas propriamente ditas (detentoras dos meios de produção e do capital financeiro como um todo) ou tecnocratas a serviço do Estado em toda a sua extensão geográfica, física e política.
UM OASIS BURGUÊS CHAMADO DASLU (OU UM ACINTE À POBREZA DO BRASIL E DO MUNDO)
Se contar e não provar, haverá sempre quem duvidar, já dizia o ditado. Alguns dados que serão aqui sintetizados, são de tal forma distantes da realidade de milhares de brasileiros - obrigados a viver com um salário-mínimo de R$ 180, ou ainda menor, e até mesmo sem salário algum, como é o caso dos desempregados pelo país afora -, que o sentimento que nos vem a mente, é de total revolta e, por que não dizer, um enojado mal-estar pela vivência extravagante e arrogante dessas pessoas oriundas da burguesia.
Parece que é coisa de outro mundo, mas é aqui mesmo no Brasil que existe uma loja feminina, como a Daslu, em São Paulo, onde, pasmem, uma fivela de cabelo pode custar o preço de uma geladeira, um tamanco custa R$ 4.000, um sobretudo é adquirido por R$ 8.600, e uma bolsa pode custar até R$ 20.000. Nessa loja, por uma roupa de noite completa há quem desembolse a bagatela de R$ 70.000. Certamente, as companheiras e os companheiros trabalhadores não possuem poder de compra para desfilar entre tão chiques balcões. Mas isso não é problema! Há quem consiga! Tanto assim o é, que algumas dessas "personalidades" declaram peremptoriamente que dão lá "uma passadinha" dia sim dia não. E mais, não conseguem sair sem assinar um cheque! Quanta condolência deveremos ter por tão graves casos de obsessão de consumo!
A tal loja possui toda uma infra-estrutura para atender à demanda de senhoras e senhoritas claramente burguesas. A Daslu possui 60 vendedoras, cada uma delas com salário mensal de até R$ 8.000, 100 arrumadeiras, 25 seguranças e manobristas. As vendedoras da Daslu, todas elas, são selecionadas pelo sobrenome, geralmente de pessoas famosas e que integram o quadro de famílias, por exemplo, como: Matarazzo, Simonsen, Lunardelli, Hafers, Bordon, Alckmin, entre outras, ou seja, vêm das tradicionais famílias burguesas paulistas. Uma garota do povo, com o sobrenome Silva, Santos, dos Anjos, de Jesus, etc., jamais deverá passar na porta de uma empresa como esta à procura de emprego, nem que ela possua uma vasta cultura e um nível educacional esmerado, pois um rotundo "não" é o que receberá em troca.
A
revista Veja coloca o seguinte sobre as compradoras da Daslu. Uma delas abastece
o guarda-roupa todo ano com os seguintes itens (vide quadro): 20 bolsas, 35
pares de sapato, 15 blazers, 15 vestidos de noite, 20 tailleurs, 10 calças
jeans, 6 jaquetas. Total: R$ 400.000. Tudo isso, que fique bem claro, é
apenas o montante dos gastos anuais, pois o singelo guarda-roupa de tão
distinta dama já ultrapassa a casa dos cinco milhões de reais!
É de amargar!
Mas a Daslu - e não poderia ser diferente, já que o cheiro do dinheiro atrai abutres de toda espécie - já possui uma loja masculina e uma vez por ano um estilista famoso vem do exterior para fazer ternos sob medida para clientes exclusivos, ao preço de R$ 5.000. Um de seus consumidores, diga-se de passagem, é o ex-Presidente do Senado, o digníssimo Sr. Antônio Carlos Magalhães, ele mesmo, que até já presenteou o Presidente Fernando Henrique Cardoso com gravatas da Daslu, conforme informa a Veja. Se pudesse, hoje, certamente daria outro uso à gravata!
O perfil de quem compra nesta loja burguesa é o seguinte, nos diz a revista: renda familiar superior a 40.000 reais, três viagens por ano ao exterior, casa própria com valor médio de 500.000 reais, motorista particular, quatro empregadas em casa, e por aí vai. Como vemos, está longe, muito longe mesmo, da realidade social brasileira, a vida das socialites e dos burgueses de toda a ordem, que vivem a visitar lojas como estas.
Apesar do tom um tanto jocoso por vezes utilizado na matéria, esse tipo de situação é muito útil para evidenciar os contrastes vividos - e sofridos - pelo chamado "povo brasileiro". Uma situação que causa indignação e que faz subir ao peito um sentimento de náuseas e revolta. Mas não apenas isso. Ao mesmo tempo, tudo isso deve nos rejuvenescer para o combate contínuo ao capital e ao conjunto da classe que o detém: a burguesia e os seus tecnocratas do aparelho de Estado, bem como os carreiristas de plantão dos palácios brasilianos e todos os segmentos civis e militares no restante do país, que vivem e se reproduzem sobre a exploração da classe operária, em particular, e do conjunto da classe trabalhadora em geral.
Temos sempre que o socialismo é o único caminho para a libertação do povo do domínio do capital, pois aponta para uma perspectiva de salvar a humanidade do caos e da barbárie, que o caótico mundo da exploração burguesa teima em manter e reproduzir. O socialismo, do ponto de vista moral, não terá nada que ver com este obtuso mundo burguês.