UM MUNDO DE HORRORES

 

Deus salve a América! Comecemos essa matéria pela charge acima, do caricaturista Angeli! Entremos, mais uma vez, nos seus poucos dizeres, que dizem tanto: “Ali, eu soltando uma bomba em Hiroshima; na outra, bombardeando o Vietnã; ao lado, eu explodindo o Camboja; depois, lutando na Coréia, invadindo o Iraque... meu filho, guerra boa é guerra na casa dos outros”.

OS VENCEDORES ESTÚPIDOS

Século XXI, Brasil, 11 de setembro de 2001. Atônitos diante das tvs acompanhávamos mais um espetáculo da mídia. A maior potência mundial sofria seu dia de humilhação. O drama das vítimas era mostrado ao vivo para o mundo inteiro. O que chamou a atenção, apesar da massiva condenação ao atentado por parte dos meios de comunicação, foi a forma como várias pessoas do nosso convívio cotidiano demonstraram um quê de contentamento: “eles mereceram”, foi uma frase que mal disfarçava um sentimento de vingança. Que sentimento é esse que passa por sobre o sofrimento de milhares de pessoas e que alguns jornalistas condenaram e condenam como mesquinhez, estupidez, inveja, ignorância, ou outros adjetivos pouco dignos? Não sejamos tão simplistas como umas tantas personalidades da Ordem em que vivemos. Não se trata aqui de apoiar o massacre, mas o sentimento de vingança de que falamos, de boa parte da população mundial, é algo muito maior do que a mera adjetivação com que foi tratado.

O mundo atual foi desenhado pelos Estados Unidos para proveito deles próprios. A distância entre ricos e pobres só faz aumentar, deixando no seu rastro dor e miséria. A política externa norte-americana causa sofrimentos em todo o planeta e mata milhares de inocentes a cada ano, sem que nenhum alarde seja manifestado. Contraditoriamente, o poder, a arrogância e a tão freqüente manifestação de força do Império tornam-no vulneráveis, porque alvo da hostilidade de várias partes do mundo. O sistema capitalista, orientado pela locomotiva americana, produz a riqueza e conforto de uns poucos às custas da infelicidade e da agonia de tantos. Tudo isso produz ressentimentos. É o ressentimento do fraco contra o forte, do pobre contra o rico, do perdedor contra o vencedor. Dentre outras coisas, fica exposto o calcanhar de Aquiles do vencedor, a sua fraqueza, quando não a sua estupidez. 

DE ONDE VEM O TERRORISMO?

Convoquemos para tecer considerações sobre a questão acima não qualquer personalidade do mundo da esquerda, mas uma estrela do mundo do Capital. Foi assim que o megainvestidor George Soros, em seu livro “A crise do Capitalismo”, referiu-se aos Estados Unidos: “Como única potência militar remanescente e potência econômica mais poderosa, os EUA (...) dispõem-se a interferir nos assuntos internos de outros países, mas não estão prontos a submeter-se às regras que procuram impor aos demais. Pode parecer chocante, mas
creio que a atual postura unilateralista dos EUA constitui uma séria ameaça à paz e à prosperidade mundiais
”. Prossegue Soros, “o sistema capitalista global gerou um campo de jogo muito desigual. A distância entre ricos e pobres está aumentando. Isso é um perigo, pois um sistema que não oferece alguma esperança e benefícios aos perdedores corre o risco de ver-se dilacerado por atos de desespero”.

Além de ser um mago das finanças internacionais, um verdadeiro “terrorista financeiro”, no dizer de alguns, Soros revelou-se também um bom “profeta”. Mas o “ato de desespero”, ou o terrorismo, pode vir de diversos lugares, não apenas do mundo árabe ou da religião islâmica, como têm sugerido os EUA. Pode vir da própria direita americana, como no caso da explosão do prédio em Oklahoma, que matou 168 pessoas e cujo autor do atentado, um ex-herói da Guerra do Golfo, Timothy McVeigh, foi executado neste ano. Diga-se de passagem, em 1993, quando do ataque ao prédio, os americanos apressaram-se em culpar os muçulmanos, quando o assassino era um dos amados filhos da América.

O fim da bipolaridade mundial, com o colapso da URSS e dos países do Leste Europeu, fez restar uma única superpotência econômica e militar. Era o começo da unipolaridade americana. O rearranjo das relações internacionais coincidiu com a vitória da ideologia neoliberal. Até cantaram e comemoraram o “fim da história”. Velhos sentimentos de ódios entre nacionalidades, etnias e rivalidades religiosas e culturais eclodiram num mundo pequeno para tantos perdedores que disputavam e disputam um naco de espaço, as migalhas que restam de uma globalização patrocinada pelos vencedores para seu usufruto. A necessidade de afirmação étnica, cultural, nacional e religiosa passou a ser, também, uma forma de esperneio dos que estavam excluídos do processo de globalização, dos que estão à margem do mundo, tratados pelos Estados Unidos e seus aliados como lixo da história.

É esse o terreno fértil onde germina o terrorismo. Para além desse cenário econômico mundial, onde predomina a exclusão, duas outras grandes questões internacionais catapultam o antiamericanismo: o apoio dos Estados Unidos a Israel e a presença de tropas americanas no Golfo Pérsico. É crescente a escalada de violência entre o Estado de Israel e as organizações palestinas, conflitos que são negligenciados pelo mundo ocidental, tendo os EUA à sua testa. A não solução desses conflitos, como de outros em diferentes espaços do planeta, é outro componente que engrossa o caldo das organizações terroristas. Para se ter uma idéia, milhares de tropas americanas estão estabelecidas, neste momento, em diversos locais do Golfo. É como ter um inimigo no próprio quintal, que tem o poder e a arrogância de ditar as suas regras e impô-las a ferro e fogo.

Em matéria veiculada na Folha de São Paulo, do dia 16 de setembro, a especialista em terrorismo e política externa de Harvard, Jessica Stern, conclui: “Precisamos dar prioridade à saúde, à educação e ao desenvolvimento econômico, ou novos ‘Osamas’ vão continuar a surgir. Sem dúvida, o que outros povos pensam de nós deve ser levado em conta. Ser temido somente não é suficiente para garantir nossa segurança”. Revelando perspicácia em sua análise, a norte-americana revela que “Bin Laden teria dito na terça-feira que está pronto para morrer e que, se os militares norte-americanos conseguirem matá-lo, centenas de outros ‘Osamas’ vão substituí-lo. Eu encontrei alguns desses ‘Osamas’. Eles aparecem em muitos países e professam diversas religiões. Em geral, aderem a movimentos extremistas por um sentimento intenso de segregação”. Vê-se que, assim como Jessica Stern, muitos conseguem vislumbrar a raiz do problema. A sua solução, no entanto, nos marcos de uma sociedade capitalista, é mais que complicada, diríamos até impossível, dada a lógica de exclusão e segregação desse sistema.

SÓ OS ARABES SÃO TERRORISTAS?

Alguns órgãos da imprensa brasileira e mundial têm dito que o atentado ao WTC e Pentágono foi o maior ataque terrorista perpetrado na História. Sem dúvida que a série de agressões atingiu uma escala fantástica e beirou o surreal. Mas a dor que dói em nós é sempre maior que a dor dos outros. Tradução de matéria do jornal “The Independent”, veiculada na Folha de São Paulo, de 17 de setembro, nos mostra que “há 19 anos começou o maior ato de terrorismo da história moderna do Oriente Médio. No dia 16 de setembro de 1982, os aliados paramilitares de Israel começaram três dias de orgia, estupros, esfaqueamentos e assassinatos nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, matando 1.800 pessoas. O fato aconteceu logo após a invasão israelense do Líbano para expulsar a OLP do país, com o aval do secretário de Estado americano, Alexander Haig, e custou 17.500 vidas libanesas e palestinas, quase todas civis”. Certamente um percentual reduzidíssimo de leitores dessa matéria se lembra ou conhece esses fatos. Vai ver que a morte de “fanáticos” não merece tanta atenção assim, mesmo que em número tenha sido quase três vezes maior que as vítimas “americanas”. Por certo, também, a democracia e a liberdade mundiais não foram questionadas com aquelas mortes, ao contrário de agora.

Mas a História é inclemente até para desmascarar os carrascos que se põem apenas como vítimas. Os Estados Unidos que buscam agora se cobrir de um véu estranho, que mistura uma aura angelical (como personificação do bem), com as garras próprias de seu poder de rapinagem, perpetrou aquele que pode ser considerado o maior ataque terrorista de todos os tempos: as bombas atômicas lançadas contra as cidades de Hiroshima e Nagazaki, no Japão. “Ah, mas estavam em guerra”, é o comentário de alguns. Poucos sabem, no entanto, que o Japão, já vencido, preparava sua rendição. As cidades aludidas, apenas para lembrar, eram alvos eminentemente civis, sem bases militares, sem defesa, mas escolhidas pelos States para sua sádica demonstração de força. E pensar que até hoje nascem ali pessoas defeituosas, vítimas do urânio radioativo cuspido sobre as cidades pelos nossos “irmãos” norte-americanos. Harry Truman, presidente de quem partiu a ordem do massacre, é ainda hoje lembrado como herói da pátria.

Poderíamos multiplicar os exemplos do horror patrocinado por esse ícone da democracia mundial, os Estados Unidos. Poderíamos discorrer fartamente sobre a população vietnamita cozida pelo napalm, lembrar tantos alvos civis atingidos no Iraque e na Sérvia por bombas não tão inteligentes, e assim por diante. Como diria o sábio Angeli, “guerra boa é guerra na casa dos outros”. Mas o propósito aqui não é o de justificar o terrorismo, nem o de nos solidarizar com os seus algozes, mas é o de tentar entender e problematizar o como e o porquê ele acontece; onde ele germina; as contradições que o fazem eclodir. Os Estados Unidos, agora sua vítima, são os seus maiores fomentadores. Experimentaram dessa vez o veneno implacável do ódio que disseminam em todo o mundo. Não há nada a comemorar, apenas a refletir e a agir: será esse sistema de exclusão, ódio e horror que a humanidade quer para ela própria?

FASCISMO NA AMÉRICA: O RETORNO DA BESTA!

Há hoje cerca de seis milhões de muçulmanos nos Estados Unidos, 600 mil só na cidade de Nova York. Boa parte dessa comunidade islâmica está sofrendo perseguições. E não só ela: brasileiros, asiáticos, hispânicos em geral, enfim, todos aqueles que não sejam americanos ou europeus são alvos de hostilidades de caráter fascista, numa tentativa de intimidação e limpeza étnica por parte um sem número de racistas americanóides, capitaneados por uma direita raivosa, que vê agora a possibilidade do renascer de seus dias de Ku Klux Klan. Não se pode desprezar o impacto psicológico dos atentados no imaginário da população estadunidense, mas que isso não sirva de desculpa para justificar ações de ódio racial no que tem sido uma cruzada paranóica em prol da xenofobia naquele país. É o retorno da besta do fascismo!

Um indiano foi preso num aeroporto dos Estados Unidos simplesmente porque usava um turbante. “Foi confundido com um árabe”, responderam as autoridades. Perguntamos: e se fosse árabe? Há um veredicto de culpa fixado em sua testa pelo fato de ser árabe? Serão todos terroristas? Ou os americanos não vão mais permitir os turbantes? Tem havido inúmeros casos de ataques a mesquitas e diversos outros fatos que expõem a odiosidade e a intolerância, dos quais até brasileiros já foram vítimas e que, embora tenham acontecido depois do atentado, revelam que a onda de ódio racial existente é só uma manifestação mais superficial de todo o sentimento de discriminação que permanecia latente na população daquela festejada democracia. Agora é soltar a fera, já que há boas desculpas para isso. É lamentável!

O ESTADO ESPIÃO: A EXECRÁVEL DITADURA AMERICANA

A intolerância manifestada agora por uma parcela da população dos EUA — não se pode generalizar, já que muitos têm revelado uma posição equilibrada — não é mais do que uma extensão do fanatismo demonstrado pelas autoridades daquele país. Após o atentado, os Estados Unidos têm-se comportado arrogantemente como o Estado que encarna o bem e a moral universal. Acreditam ser detentores de um “destino manifesto”; por isso, cabe-lhes cumprir os desígnios últimos da ética humana.

É baseado neste tipo de crença — de caráter fundamentalista, diga-se de passagem — que os Estados Unidos se lançam numa guerra em que “quem não está conosco, está contra nós”, no dizer do arguto presidente americano George W. Bush. Num plano mais interno, a pretexto de combater o terrorismo, os EUA vão restringir os direitos civis de americanos e abolir direitos judiciais de estrangeiros. Em resumo, haverá um aumento generalizado da espionagem interna, atividade em que já gastam alguns bilhões de dólares anualmente. Desde a gestão do ex-presidente Clinton, qualquer pessoa que quisesse emigrar para os EUA já enfrentaria regras muito mais duras. Hoje, naquele país, imigrantes podem ser jogados na cadeia sem nem ao menos saber do que são acusados. Uma lei antiterror inglesa, estudada atualmente pelo Congresso dos Estados Unidos, a “Prevention of Terrorism Act”, dá respaldo ao governo para manter na cadeia, por um período longo, qualquer pessoa mesmo que sem acusação formal ou expedição de mandado prévio.

Para quem se surpreende com atitudes assim, num país que se reivindica o exemplo mundial de democracia, veja a opinião de dois ícones do pensamento conservador da mídia religiosa americana. Falamos aqui do evangélico Pat Robertson e do reverendo Jerry Falwell. Para esses vultos, os atentados ocorreram por culpa das mulheres que fazem aborto e dos homossexuais. Devido a tais condutas vulgares e irreligiosas, os EUA teriam insultado e perdido a proteção de Deus. É esse o cúmulo da estupidez americana? Tomara que sim, mas, sem dúvida, é um exemplo, este sim, de um fundamentalismo imbecilizante que vem dos States.

OS EUA SÃO OS DONOS DO MUNDO?

Vou liderar o mundo até a vitória. Esta será uma batalha monumental do bem contra o mal” (George W. Bush, Presidente dos Estados Unidos).

Não se trata só de capturar essa gente. É preciso eliminar os santuários, eliminar os Estados” (Donald Rumsfeld, Secretário de Defesa americano).

 “Aqueles que ficarem contra os EUA ou não declararem apoio aos americanos sofrerão isolamento” (Colin Powell, Secretário de Estado americano).

Algumas reflexões podem ser tentadas a considerar o teor das frases acima, proferidas pelo supra-sumo do poder de Estado americano. Em princípio, serão os Estados Unidos, de fato, a encarnação do bem? O tosco maniqueísmo americano se revela mais uma vez por meio de suas autoridades maiores. O próprio Bush, em outra de suas pérolas, proferiu o seguinte: “Não distinguiremos entre os terroristas que cometeram esses atos e aqueles que os abrigam”.

Qualquer interpretação minimamente perspicaz dá conta de que muitos inocentes morrerão junto com os tais terroristas; mais e mais ódio será direcionado aos Estados Unidos com esse comportamento que torna a nação americana um grande Israel. Eles se julgam capazes e no direito de “eliminar os Estados”, e ai de quem não lhes der apoio. Não é à toa que o governo brasileiro e argentino, num jogo de cena para adular o Grande Irmão do Norte, tem perpetrado um verdadeiro abuso ao perseguir descendentes de árabes no Paraguai, sem provas de que sejam ou estejam ligados a atividades terroristas. Este é só um exemplo de como o mundo pode ficar ainda pior com a caça às bruxas que tem sido promovida pela grande Águia do Poder mundial.

Osama Bin Laden, sem sombra de dúvidas, não é um santo. Promessas de um ataque feroz aos Estados Unidos já tinham sido proferidas pelo terrorista saudita. O Estado americano — que, pelo que se conhece, também não está em via de canonização — com a sua prepotência acintosa, julga-se no direito não só de apontar o criminoso, mas de sair bombardeando outros Estados, SEM QUE NENHUMA PROVA TENHA SIDO ATÉ AGORA APRESENTADA. Não há, ou não foi evidenciado até então, nenhum vínculo que ligue os 19 supostos perpetradores do ataque ao satanizado Bin Laden. Será preciso apenas a palavra de algumas autoridades norte-americanas para lavrar a sentença? Pelo visto, o julgamento já foi realizado e o veredicto foi dado por jurados viciados, cuja composição retrata a fina flor dos fundamentalistas do Tio Sam.

Mas a ditadura americana tem também as suas armas voltadas para um outro público. É flagrante a utilização política de um momento trágico como o dos atentados, com o objetivo de calar a voz de quem quer que lhes faça oposição. É preciso silenciar os críticos do neoliberalismo e da globalização ao estilo americano. A denúncia de tal prática foi feita pela jornalista canadense Naomi Klein, em matéria na Folha de São Paulo, de 19 de setembro, na qual revela que “o governo está usando o horror da situação atual para tentar calar seus detratores. Isso é um ataque ainda mais grave às liberdades civis do que a possibilidade de que a CIA [agência de inteligência dos EUA] esteja monitorando minhas conversas telefônicas”. Ainda para a jornalista, “... as autoridades buscam impedir qualquer discussão crítica sobre a política externa dos EUA ou sobre a supremacia do capitalismo neoliberal. Elas querem que paremos de pensar. A idéia de que um ‘outro mundo é possível’ está ameaçada”.

Além das peripécias internacionais, o governo americano tenta calar os movimentos que criticam sua conduta. A Obsessão pelo mercado livre, pela globalização, pelo mundo neoliberal têm-nos levado, desde algum tempo, a um totalitarismo econômico mundial. A obsessão pela hegemonia americana, numa verdadeira sanha bestial, pode-nos levar a um totalitarismo político em escala planetária. A autora atrás citada é mentora de alguns grupos antiglobalização que têm promovido grandes manifestações por ocasião das reuniões de cúpula dos países do G7. É necessário frisar que a posição defendida pelo corpo editorial do Jornal Germinal não é apenas contra a “globalização” ou a forma de gestão atual do Capital, o “neoliberalismo”;  mais do que isso, posicionamo-nos contra a própria sociedade capitalista, com sua lógica excludente e todas as misérias, desigualdades, preconceitos e intolerâncias que carrega consigo.

AS COMPLICADAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Gostaria que o governo e o público americanos usassem essa tragédia para examinar o que leva tanta gente a ver os símbolos da América como inimigos. Fundamental seria mudar a posição de arrogância, a presunção de que temos o direito de tomar decisões pelo resto do mundo. Mas temo que não seja essa a resposta”.

Phyllis Bennis (Folha de São Paulo, 16 de setembro de 2001).

Unilateralismo é o conceito que tem sido utilizado para designar a posição dos Estados Unidos no que tange às relações internacionais. É uma espécie de auto-suficiência daquele país que sequer discute, mesmo que com outros grandes, algumas de suas posições estratégicas. Ainda que essas posições digam respeito à sobrevivência do planeta, a insolência norte-americana os faz tomar sozinhos atitudes sempre em prol dos seus interesses. Se a administração Clinton sinalizou com umas poucas nuances de multilateralismo, o governo Bush acirrou o ambiente “unilateral” por parte dos EUA. A lógica do mundo no pós-atentado tem mostrado que esse acirramento tende ao seu limite. Amigos/inimigos: essa é a dicotomia atual.

A citação acima reproduzida é de um norte-americano especialista em Oriente Médio do Institute for Policy Studies, de Washington. Para Phyllis Bennis, a sensação de vulnerabilidade criada pelos terroristas poderia levar à revisão da política externa americana, ao invés do seu endurecimento. O que se vê, ao menos até então, é a vitória contundente da segunda possibilidade, a que pode levar mais e mais violência e ódio a todo o mundo.

Não é por outro motivo que a China e a Rússia tem revisto a sua posição em relação à ação americana. Se, num primeiro momento, engrossaram o coro da vingança contra os terroristas, começam agora a pesar também as suas perdas com a intervenção americana na região. Esses dois países defendem um mundo multipolar e temem que a intervenção dos Estados Unidos no Afeganistão reforce ainda mais a hegemonia de Washington, o que comprometeria a política externa dos países aludidos. Os russos, além de rejeitar participar das ofensivas, também recusaram a possibilidade da Otan — a aliança militar ocidental liderada pelos Estados Unidos — usar bases russas ou mesmo de ex-repúblicas soviéticas. A expansão americana rumo à Europa Oriental e à Ásia isolaria e enfraqueceria ainda mais a já debilitada Rússia. A China, por sua vez, tenta o improvável, ou seja, que a ação militar americana passe por aprovação da ONU, Organização das Nações Unidas, instituição já algumas vezes ignorada (e humilhada) pelos EUA, como na ocasião da Guerra do Kosovo, em 1999. O complicado jogo geopolítico inclui elementos de interesses econômicos, uma vez que China e Rússia vendem armas e tecnologia nuclear a países como Irã, Iraque e Paquistão. A entrada dos americanos poderia alterar o jogo de relações em detrimento inclusive dos negócios daqueles países.

Outro dos efeitos terríveis que poderiam advir de uma guerra dos Estados Unidos contra os afegãos seria uma Guerra Civil no vizinho Paquistão. Esse país, uma potência nuclear, tem em sua população uma significativa parcela de militantes islâmicos. Esse é o maior problema do Paquistão, na atual conjuntura. Um descontentamento generalizado da população, pelo fato da cúpula paquistanesa estar apoiando os “infiéis americanos” — o “grande Satã”, para opinião de muitos do mundo islâmico —, tem levado ao temor diversos governantes ocidentais. Alguns países da Comunidade Européia têm relativizado o apoio à forma como os Estados Unidos estão conduzindo o problema. O medo dos europeus é que seja inevitável a guerra civil e que o governo paquistanês caia nas mãos dos militantes islâmicos que apóiam os afegãos. Imaginem o poder de fogo das milícias islâmicas, tendo nas mãos o Estado paquistanês com todo o seu poderio nuclear. Seria uma festa para uns tantos Bin Ladens, com o componente adicional da raiva multiplicada contra os EUA e o mundo ocidental.

Por vezes a complexidade do problema nos passa a impressão de que os americanos, apesar dos arroubos de superioridade e da arrogância comum, estão um tanto perdidos em meio aos possíveis cenários que poderão desencadear. Há que se destacar o alcance daquele país na rearrumação da geopolítica mundial. No complicado jogo percebemos, por exemplo, a tentativa americana de implicar o Iraque nos atentados. É a busca desesperada de um culpado, de um culpado que seja um Estado que possa ser duramente atingido. James Woolsey, ex-chefe da CIA, já declarou que “tendo ou não provas de envolvimento nos atentados, a ocasião seria muito boa para os Estados Unidos tentarem se livrar de uma vez de Saddam Husein”. É de estarrecer a prepotência desses campeões da democracia mundial. “Tendo ou não provas...” Precisa comentar?

A maneira como se vão desdobrar os fatos daqui por diante pode, inclusive, dar forma a todo um sistema internacional. Muitas mudanças podem advir como conseqüência do ataque terrorista, tal a magnitude do ato e os alvos atingidos. A posição dos EUA será de suma importância para se rearrumar o jogo do poder entre os Estados e definir um novo perfil do imperialismo no planeta. Talvez isso explique o fato desse mesmo país estar com tamanho empenho em apontar o Afeganistão e o saudita Bin Laden. Qual não seria a surpresa se os americanos encontrassem outros responsáveis? E se fossem alguns de seus aliados? E se houvesse a participação de uma coalizão de países, como parece ser bastante possível? A quem os Estados Unidos atacariam? Aos aliados? Muitos dizem que o mundo não será mais o mesmo. Talvez esteja mudando para pior...

B  O  X   1

 A ECONOMIA MUNDIAL E O BRASIL

Um certo tom de mistificação tem sido constante por parte de alguns órgãos da imprensa quando afirmam que devido ao ataque a economia mundial entrará em recessão. Na realidade, a economia norte-americana já dava claros sinais de desaquecimento, e a recessão era — e é — uma tendência mundial. Se alguns setores da economia nos Estados Unidos, como o da aviação, sofrerão reflexos significativos, por outro lado, o atentado acabou por servir de desculpa para que algumas empresas passassem a demitir ainda mais, a reestruturar e cortar, ajustando-se ao quadro recessivo que já se esboçava.

O que se pode depreender de conseqüência real dos ataques ao cenário econômico mundial é uma elevação dos chamados “custos de transação”. Com as medidas de segurança, que têm sido e serão adotadas, ficará mais caro — portanto, mais antieconômico — realizar transportes de mercadorias e de pessoas, serão encarecidas as transações comerciais em escala local e internacional. Como a rentabilidade das empresas tem dado sinais evidentes de declínio, e a economia trabalha com uma tendência à queda da taxa de lucro, tal qual diria Marx, esse “choque de custos” tende a reduzir ainda mais a lucratividade e é um fermento que deve inchar a possibilidade de recessão. Como as empresas logo passam seus aumentos de custos para o consumidor, imaginamos que os trabalhadores em nível mundial serão logo premiados com a convocação a pagar o “imposto atentado”, maquiado num aumento de preços de vários produtos e serviços ao redor do mundo.

Os acontecimentos nas bolsas de valores, que sofreram quedas generalizadas em todos os países, foram apenas um reflexo da economia chamando para a realidade papéis que teimam em se desvincular dos valores das empresas e alçar vôos virtuais em direção a uma riqueza fictícia.

O que se pode esperar para o Brasil, no curto prazo, é uma diminuição dos investimentos externos e uma tendência a pressões inflacionárias, dado o “estouro” do dólar e a obrigação — por motivos óbvios e por pressão americana — de se investir em segurança. Essas tendências configuram um quadro complicadíssimo da economia, principalmente se se leva em conta o descontrole das dívidas públicas, da previdência, problemas de infra-estrutura, falta de energia, etc. Como se fossem poucos os problemas, as próprias empresas passam a considerar uma diminuição nos gastos com investimentos em produção. É a recessão que se reforça com os sinais dela mesma, dada a tendência da diminuição dos gastos dos consumidores.

A redução dos estoques das empresas, a contenção dos seus investimentos em produção, o aumento à tendência “exuberante” e irracional do capitalismo financeiro são sinais mais evidentes de uma crise de superprodução ou, dito de outra forma, de uma crise generalizada do próprio Modo de Produção Capitalista. Apesar de todos os problemas, uma coisa é certa: os atentados causarão o efeito de catapultar ainda mais a indústria bélica. Ainda que alguns bilhões de pessoas passem fome a cada dia, teremos a contrapartida de ver máquinas mortíferas serem magistralmente operadas como num grande videogame, que revelará ao planeta um show de tecnologia e mostrará a todos a capacidade humana de destruir o outro. É essa a racionalidade do nosso sistema!

B  O  X      2

BIN LADEN: MAIS UM filhote DA CIA

Osama Bin Laden e os Estados Unidos foram aliados na guerra do Afeganistão (1979-1989) contra a ocupação soviética. A CIA, Central de Inteligência Americana, ensinou ao terrorista como fazer a guerra clandestina, como utilizar empresas fantasmas para movimentar dinheiro clandestino, o trato na preparação de explosivos, a forma de retirada para um local seguro após um ataque, além da utilização de códigos cifrados para a comunicação com os seus agentes. Várias dentre outras informações foram veiculadas por Richard Labévière, escritor francês, autor de “Os Dólares do Terror, Os Estados Unidos e os Islâmicos”. Em entrevista ao jornal “Tribune de Genève”, ele revela que “Bin Laden é um produto dos serviços americanos”.

A rede Al Qaeda (A Base, em árabe), que conta com mais de 3.000 agentes palestinos, libaneses, jordanianos, egípcios, dentre outros habitantes da península arábica, pode ter membros infiltrados em vários países do mundo. Sua origem remonta à década de 80, quando Bin Laden, ajudado pela CIA e os serviços de espionagem americanos, criou uma rede de coleta de fundos e recrutamento para os guerrilheiros afegãos. A União Soviética era o satanás a ser combatido, na demonizada lógica americana de tratar seus rivais. Muitos dos agentes da Al Qaeda são qualificados profissionais de informática, engenheiros, médicos e até pilotos de aviões. Apesar de não lhes faltar técnicos e cientistas, possuem essas pessoas a crença de que suas mortes, desde que em ataques a israelenses ou norte-americanos, podem ser a chave para o Paraíso, uma forma de ver a face de Alá.

A ruptura de Laden com os americanos se deu durante a Guerra do Golfo, quando os Estados Unidos invadiram, na visão de muitos militantes islâmicos, o solo sagrado da Arábia Saudita, o país que abriga as cidades de Meca e Medina. Na visão de muitos analistas, Osama Bin Laden é uma espécie de efeito colateral da Guerra do Afeganistão, assim como o seu ódio aos Estados Unidos um efeito colateral da Guerra do Golfo. O próprio Saddam Hussein já fora alimentado pelos EUA na guerra Irã x Iraque, quando o Satã da vez era o Irã. O iugoslavo Slobodan Milosevic é um outro exemplo. A questão que fica no ar é quantos osamas ou saddans, sedentos de sangue americano podem surgir como “efeito colateral” de uma guerra dos States ao Afeganistão? O mundo pode se deparar mais uma vez com a velha história da criatura que supera o criador!

PS – Apenas para lembrar, os Estados Unidos até o fechamento desta edição não apresentaram nenhuma prova do vínculo de Bin Laden ao atentado, provas que dizem ter, mas não aparecem...

B  O  X      3

AFEGANISTÃO! ATACAR UMA TERRA ARRASADA?

Há um “desastre humano” no Afeganistão. A avaliação é do belga Stephan Goedgeburr, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, veiculada em 16 de setembro último. Este senhor, chefe da organização humanitária MSF (Médicos Sem Fronteiras) revela que o país vive a pior seca dos últimos 30 anos. A ONU estimava, antes da possibilidade de guerra, que mais de um milhão de pessoas podem morrer nos próximos meses, sobretudo por falta de alimentos. A MSF, que deixou o país com receio do ataque americano, contava com 474 integrantes entre afegãos e estrangeiros. Hoje, não restam mais que dez, na região controlada pela Aliança do Norte.

Além da gravíssima crise de desnutrição, é pouca a água potável em disponibilidade no país. A situação, que já era dramática, agrava-se com a saída das agências humanitárias, que fechou as 20 clínicas e os centros de distribuição de comida. O maior dos problemas, no entanto, são as centenas de milhares de refugiados internos, pessoas que abandonam as suas casas e perambulam como zumbis fugindo da seca e dos confrontos. Essas pessoas geralmente se instalam provisoriamente ao redor das grandes cidades, o que aumenta os bolsões de miséria e os problemas como desnutrição, falta de abrigo e saúde, problemas que se reforçam mutuamente. A debandada dessas pessoas também pode ser mortal, pois o Afeganistão é o país mais minado do mundo. A ONU estima em 10 milhões o número de minas explosivas que ainda existem no solo, herança da invasão russa por uma década inteira.

Como se não bastasse, o inverno é extremamente rigoroso e as cidades, inclusive Cabul, a capital do país, estão praticamente destruídas. O país está devastado e sem nenhum poder de reconstrução. É o resultado, além de tudo, de 23 anos de guerras.

O relevo montanhoso seria um dos poucos aliados que os afegãos teriam em caso de uma ofensiva americana. Mesmo com todas as desvantagens, uma guerra convencional poderia trazer problemas aos Estados Unidos, pois a movimentação de tropas em terras implicaria em morte de soldados. Diante do quadro calamitoso, os Estados Unidos têm um grande problema: saber quais alvos atingir já que o país está completamente arrasado. A não ser que optem pela completa eliminação do Estado, o que achamos difícil, apesar da insanidade e dos arroubos vingativos das autoridades americanas...