A FEROCIDADE AMERICANA:

Registros de um massacre e de um domínio global!

Para muitos, a guerra já passou; mas, na realidade, algumas regiões do Afeganistão continuam a ser bombardeadas. Apesar da intermitência do ataque — mais densos nesses primeiros dias do mês de março —, aviões B-52 americanos continuam seu massacre, agora à caça dos sobreviventes do Al-Qaeda e de grupos remanescentes Talebans. Embora já se tenham passado os momentos mais intensos da Guerra, proporemos com este artigo uma costura entre o massacre perpetrado às populações afegãs e a forma como os Estados Unidos tecem uma dominação cada vez mais abrangente no cenário internacional. Antes, entretanto, cuidemos de relembrar alguns fatos.

Contrariando muitas análises que consideravam o Afeganistão um adversário difícil de ser vencido, as forças militares norte-americanas mostraram do que são capazes com o seu poderio. Para muitos, causou surpresa a velocidade da vitória ou, ao menos, a forma rápida como destronaram os ocupantes do poder Taleban ao tomar uma a uma de suas grandes cidades. A corajosa, audaciosa e aguerrida estratégia dos vitoriosos consistiu em combinar o uso de satélites, aviões não tripulados para reconhecimento, os tais mísseis “inteligentes”, enfim, conquistaram a supremacia aérea e derramaram densos bombardeios em todo o Afeganistão. Foi — e continua a ser — a guerra da ultra-superior tecnologia militar contra o estilingue.

Mas uma guerra não pode ser vista como uma mera contabilização de estatísticas, ou pelo deslumbramento que causam a muitos uma festejada capacidade de destruição. Ela acarreta, por assim dizer, “efeitos colaterais”. Foi esse o termo encontrado pelos belicosos americanos para justificar o injustificável: a morte de milhares de inocentes no campo de batalha em que transformaram — outra vez — o Afeganistão.

Algumas poucas matérias veiculadas pela mídia brasileira e mundial revelaram, ao longo dos últimos meses — e aqui recorreremos a algumas delas —, alguns episódios que tentaram “humanizar” a guerra, ao tempo em que denunciavam o horror que ela provoca. Há que se ressaltar que são raras as tais pérolas, considerando o que permeia a “nossa imprensa”: a glorificação da vitória americana, a festa por se estar construindo um “novo Afeganistão”, democrático e progressista, interpretações essas tão fartas em nossos “jornais nacionais” e nas “revistas vejas” da vida, órgãos de imprensa que mais parecem os representantes oficiais dos interesses americanos, incrustados em território brasileiros e, infelizmente, nas consciências de tantos mortais.

Condensaremos nesta matéria alguns desses horrores, para dar idéia do verdadeiro massacre que impuseram não apenas aos satanizados Talebans, mas à população civil afegã, que pagou — e paga — com o seu sangue e sofrimento, o preço da manutenção e consolidação da hegemonia americana sobre o mundo globalizado. A lógica que se impõe é muito mais do que a do massacre por ele próprio, é a da dominação em escala planetária de um Modo de Produção que necessita subordinar e subjugar não apenas as atividades econômicas, mas toda forma de manifestação social, política ou cultural que lhe possa fazer oposição. Essa faceta do capitalismo, essa necessidade de produzir e reproduzir ampliadamente capital torna, vez por outra, mais fácil a visualização da cara mais cruel do seu totalitarismo econômico. A guerra é um desses momentos, o que revela, por assim dizer, a face sem máscara e aterrorizante do capital.

QUAL A NATUREZA DA “VITÓRIA DA DEMOCRACIA?”

Durante a Guerra foi uma regra o Pentágono negar que seus bombardeios tivessem atingido civis no Afeganistão. Na verdade,  centenas, ou melhor, milhares de afegãos morreram, foram mutilados ou feridos, como efeito dos precisos bombardeios da primeira potência mundial. Vários relatos foram colhidos de camponeses ou trabalhadores daquele país, muitos deles confirmados por testemunhos ocidentais. Em três noites de bombardeios americanos nas proximidades de Jalalabad, no leste do Afeganistão, mais de cem civis morreram e cerca de 200 ficaram feridos, conforme atestou um repórter do jornal britânico “The Independent” que esteve em Kama Ado e disse que as bombas mataram 115 pessoas no vilarejo (Folha de São Paulo, 04/12/2001). Mohamad Khan, que conseguiu cruzar a fronteira para o Paquistão, afirmou ter perdido os cinco filhos. Motivo: o jipe em que eram transportados fora confundido com um veículo militar taleban e bombardeado pelos super-homens da democracia do Tio Sam.

Na região leste do país, “refugiados relataram ter testemunhado explosões nas vilas de Nadaf, Zaly Baba, Ghaly Khiel, Musa Khiel e Armat Khiel. Todos concordaram em dizer que os povoados estavam cada vez mais vazios, à medida que mais e mais famílias fugiam, carregando o que podiam nas costas”. É sintomático o testemunho de um refugiado lavrador: “Por que os americanos lançam bombas sobre nós, quando seus inimigos são os árabes que estão nas montanhas?” (Folha, 09/12/2001). Estas são apenas poucas das muitas situações que determinaram um esvaziamento demográfico em várias regiões de agricultura no Afeganistão. Condenados a morrer nos bombardeios, muitos dos camponeses preferiram trocar sua vida difícil pela total miséria nos campos de refugiados.

Se esse foi o tratamento recebido por quem não participou diretamente do confronto, aos prisioneiros das forças Talebans sobrou a tortura e a chacina. Nos últimos períodos do avanço da Aliança do Norte e dos seus aliados americanos, o espírito foi o da carnificina total. Repórteres do Jornal “The New York Times”, relataram a morte de dezenas de prisioneiros Talebans depois de se renderam às forças da Aliança do Norte. Muitos dos mortos eram estrangeiros que lutavam do lado Taleban e acabaram asfixiados ao serem levados numa viagem de três dias dentro de contêineres: “sem oxigênio, sem oxigênio”, disse em inglês um dos sobreviventes (Folha, 12/12/2001). Tradução do Jornal “The Independent”, pela Folha de São Paulo de 15 de dezembro de 2002, dá conta de que “os americanos e seus aliados afegãos estariam tentando encobrir um suposto massacre de mais de 200 combatentes estrangeiros pró-Taleban na tomada do aeroporto de Candahar. O destino desses combatentes foi envolto em mistério...”

Desde o massacre de Mazar-e-Sharif, quando americanos, britânicos e soldados da Aliança do Norte reprimiram uma rebelião de prisioneiros de guerra pró-Taleban matando 150 deles, tem sido claro que nem os Estados Unidos nem seus aliados no Afeganistão estavam interessados em arcar com o ônus de prisioneiros, sobretudo os árabes. A ordem era matar todos, mesmo que o discurso das autoridades americanas teimasse em negar fatos e circunstâncias.

UM DEPOIMENTO CONTUNDENTE...

O mais impressionante depoimento de que tivemos notícia, produzido por conta da Guerra, veio do jornalista inglês do “The Independent”, Robert Fisk. Sua matéria, com o título “Os que me espancaram tinham razão” foi veiculada em vários jornais brasileiros à época. Tratou-se do espancamento sofrido pelo mesmo jornalista por um bando de refugiados afegãos quando de uma pane em seu carro em Kila Abdullah. Os homens se aproximaram e... Deixemo-nos conduzir pela pena do próprio Robert Fisk: “Um menino tentou agarrar minha bolsa. Depois outro. Então alguém me deu um soco nas costas. Rapazes quebraram meus óculos e começaram a me bater no rosto e na cabeça com pedras. Eu não conseguia enxergar por causa do sangue que jorrava de minha testa e inundava meus olhos. Mas, mesmo naquela hora, entendi. Eu não podia culpá-los pelo que estavam fazendo”.

A preocupação do referido jornalista foi a de não permitir a exploração do fato por um viés ocidental, que por certo relataria sobre o espancamento de um jornalista britânico por uma turba de refugiados ensandecidos. Não, Fisk teve sensibilidade suficiente para decodificar a mensagem: “Para que, então, registrar os minutos de terror e repúdio que passei ao ser agredido perto da fronteira afegã, sangrando e chorando como um bicho, quando centenas — sejamos francos e digamos logo que são milhares — de civis inocentes estão morrendo nos ataques aéreos americanos ao Afeganistão, quando a chamada ‘guerra da civilização’ está queimando e mutilando os pashtus de Candahar, tudo isso para o ‘bem’ triunfar sobre o ‘mal’?”

Era o estrangeiro que estava assustado, era a possibilidade — uma das poucas — do ocidente ser humilhado. A tentativa de alcançar o ônibus no outro lado da rua foi em vão. “A mensagem era apavorante: alguém me odiava o suficiente para querer me ferir. Recebi mais dois socos fortes (...). Os passageiros olhavam para mim mas não se mexiam. Ninguém queria ajudar. Foi então que me arrastaram para longe.” Um homem de turbante e barba grisalha se aproximou e levou o jornalista para longe da multidão. Na tentativa de se salvar ele havia socado alguns afegãos: “O que foi que eu fiz, repetia. Eu tinha socado e atacado refugiados afegãos, exatamente as pessoas sobre as quais vinha escrevendo havia tanto tempo, as pessoas mutiladas e miseráveis que meu próprio país (Reino Unido) — entre outros — estava matando”.

Mais algumas observações pontuam a matéria do britânico Fisk: “Passei mais de duas décadas e meia relatando a humilhação e a miséria do mundo muçulmano, e agora a revolta dele atingiu também a mim. A brutalidade dos que me atacaram é inteiramente produto da ação de outros, da nossa — nós, que armamos sua luta contra os russos, que ignoramos sua dor, que zombamos de sua guerra civil e depois os armamos e pagamos para lutar na ‘guerra pela civilização’, a poucos quilômetros de distância, e então bombardeamos suas casas, massacramos suas famílias e chamamos isso de ‘danos colaterais’”.

O fecho do seu depoimento também é revelador: “E é esse o cerne da questão, é claro. Os agredidos foram os afegãos. As cicatrizes foram infligidas por nós, pelos aviões B-52, e não por eles. E torno a repetir: se eu fosse um refugiado afegão em Kila Abdullah, teria feito exatamente o que fizeram. Teria atacado Robert Fisk — ou qualquer outro ocidental que encontrasse”. Resumimos aqui a narrativa de Robert Fisk e utilizamos várias citações (Folha, 11/12/2001). Mais do que uma simples história da guerra o depoimento foi uma espécie de resumo do que escrevemos até então, e com um especial toque de sensibilidade. Não é preciso dizer muito mais que isto. Importante, agora, é tentar entender os interesses maiores por trás de tantas cortinas de fumaça.

OS ESTADOS UNIDOS E O MUNDO: COMO SE FORJA UM DOMÍNIO EM ESCALA PLANETÁRIA

Desde a segunda metade do século XX que os Estados Unidos arquitetam uma hegemonia mundial. Enganam-se os que acham que esse processo já está consolidado. Ao contrário, os norte-americanos, desde os acontecimentos de 11 de setembro, sob o pretexto de lançar uma “guerra ao terror”, buscam disseminar ainda mais o seu domínio planetário.

Não é por acaso que os EUA têm-se esmerado em ocupar as reservas de vida e as riquezas minerais do planeta. A Amazônia está na sua alça de mira, assim como várias regiões de importância estratégica, com grandes reservas petrolíferas, ou mesmo locais cruciais para o escoamento do óleo, como o Afeganistão. Até no Alasca já anunciaram a disposição de explorar o petróleo, acabando com as últimas áreas protegidas daquela região. No mais, os Estados Unidos, em 2001, instalaram uma base militar na Argentina, tentaram tomar do Brasil a base de lançamento de foguetes de Alcântara, no Maranhão e, ao invés do discurso falacioso de “combater o narcotráfico” na Colômbia, adotaram um outro discurso, da mesma forma falacioso, porém com maior poder de fogo: a ordem agora é “combater o terror”. Sob esse pretexto, qualquer ofensiva poderá ser usada contra todo tipo de movimento popular. A história recente tem produzido a ampliação da escala e a potencialização dos métodos da intervenção americana no mundo.

É com base nesse espírito de dominação de amplo alcance que os EUA já falam em expansão do conflito atual para outros confins do mundo. A pretexto de lutar contra o terrorismo qualquer rincão do planeta pode ser violentado pelo Grande Irmão americano. Desde o marco do ataque à Nova Iorque e Washington, começou a ser gestado no mundo o que os especialistas têm chamado de “Doutrina Bush”. É com base em tal tipo de formulação que os Estados Unidos falam em expandir a luta contra o terror para as Filipinas, Oriente Médio, África, sem contar os países que a poderosa Águia caracterizou como o “eixo do mal”, como o Irã, o Iraque e a Coréia do Norte. Estes foram transformados, pelo viés do discurso americano, em “Estados bandidos”.

Matéria da Revista Veja, nº 1740, de 27/02/2002, intitulada “Bush continua em Guerra”, dá conta de que o discurso belicoso americano continua a existir pelo fato do seu presidente “ter gostado demais da vitória espetacular contra o terrorismo no Afeganistão” e ter “dificuldades psicológicas para desvestir a roupagem de caubói adequada para desbaratar os terroristas da Ásia Central”. Para completar, fala que “Bush liderou uma campanha bélica que entrará para a história como uma das menos sangrentas e mais bem sucedidas de todos os tempos”. Seriam os redatores da tão conceituada revista ingênuos ou mal-intencionados? Deixemos que o leitor decida, mas uma quase inocente indagação não pode deixar de ser feita: a guerra foi pouco sangrenta? Como diria, “pouco sangrenta para quem, cara pálida?” Dá para perceber o ponto de vista de uma certa imprensa no Brasil?

Mas a candura desse tipo de formulação não pára por aí. Esforça-se, por exemplo, em centrar na figura do parvo Bush o problema do discurso belicoso. Quando falamos em “Doutrina Bush”, ou mesmo no discurso do próprio George W. Bush, queremos ressaltar tudo aquilo que ele representa, tudo que está por trás de sua cantilena, sobretudo como um representante do grande capital americano — a indústria bélica aí incluída. Há uma lógica e uma estratégia na continuidade do discurso belicoso, lógica esta muito bem captada em matéria do Jornal A Tarde, edição de 02/02/2002, assinada pelo professor Muniz Ferreira: “Através da atualização constante da excepcionalidade da guerra, torna-se possível controlar a oposição e conquistar apoio de massas, alimentando os sentimentos de temor e ódio. Por outro lado, considerando-se que o custo econômico, político e humano de uma guerra efetiva tende a se constituir, com o passar do tempo, em um fator de desgaste para qualquer governo, a estratégia mais eficaz consiste sempre em alternar momentos em que há uma guerra efetiva, de outros em que existe uma guerra potencial. A primeira, evidentemente, de duração determinada, a segunda de extensão indefinida”.

A guerra potencial clássica do século XX foi a chamada “Guerra Fria”; a deste início do século XXI, a “Guerra contra o terror”. E tudo se transforma numa política de dominação e manipulação — de massas e de países —, em repressão às oposições, em atos de tirania e antidemocracia contra imigrantes, adeptos do Islã e boa parte da população. Onde ficam as propaladas liberdade e democracia estadunidenses? A recorrência ao patriotismo do norte-americano serve como um entorpecente, ao tempo em que se cobram sacrifícios no que diz respeito ao seu modo de vida, como a perda de liberdade, menos privacidade, maior intromissão do Estado na vida de cada um, enfim, uma bisbilhotagem oficial consentida, como se fosse um mal menor.

Para costurar a sua dominação em escala global, os Estados Unidos carecem da legitimação do seu discurso, quer seja num nível interno ou em âmbito internacional. Seguindo tal linha de raciocínio, a mesma matéria de A Tarde citada anteriormente nos aponta a necessidade, pelo Estado americano, da “... existência, real ou fictícia, de uma atmosfera internacional de tensão e instabilidade estratégico-militar, que alimente os receios de largos setores da população estadunidense. Outro componente fundamental é a disposição e a capacidade do Estado norte-americano em materializar um projeto de unipolaridade estratégica mundial. Na situação presente, a realização de tal objetivo requer que os Estados Unidos assumam a responsabilidade pela estabilização do sistema internacional através do desempenho de uma função de polícia global antiterror na melhor (ou pior) tradição das grandes potências imperiais do passado”. São essas algumas das mais novas conformações de um Imperialismo tramado em meio a uma crise mundializada do capital, e sem qualquer perspectiva de uma ampla retomada de crescimento.

BUSH E O DISCURSO AMERICANO

Vejamos agora algumas das falas reveladoras que foram proferidas por ocasião da guerra e dos seus desdobramentos. A tônica dos discursos, na intenção manifesta dos seus pronunciadores, no caso, do presidente dos States, o Sr. George W. Bush, é lançar avisos aos governos que protegem terroristas. Para dar veracidade às falas inculcam a preocupação com possíveis ataques aos EUA, por exemplo, por parte de Estados como Iraque, Irã e Coréia do Norte, com armas nucleares, químicas ou biológicas. Preparado o terreno, vêm os petardos, como estes: “Não vou ficar esperando os acontecimentos enquanto os perigos crescem. Não ficarei parado enquanto o perigo se aproxima cada vez mais. Os EUA não vão permitir que os regimes mais perigosos do mundo nos ameacem com as armas mais destrutivas do mundo” (Folha de São Paulo, 31/01/2002). É a quintessência do Bem sendo ameaçada pela quintessência do Mal. Dá para acreditar nisso? Apenas como ilustração, os países classificados como “Eixo do Mal”, possuem, juntos, um orçamento militar anual de U$ 12 bilhões, o que os EUA gastam em defesa em dez dias (Folha, 10/02/2002).

As vítimas norte-americanas, ou melhor, o seu Estado, no papel mal-representado de vítima indefesa, continua a vomitar arrogância e sinalizar ao mundo quem é quem no cenário internacional: “Não vamos desistir enquanto não for derrotada a ameaça do terrorismo global”, vaticinava o arguto Bush. E mais: “A mensagem já foi transmitida claramente ao inimigo. Já foi transmitida claramente ao mundo. Ela foi transmitida pela melhor força armada já reunida, a força armada dos Estados Unidos” (Folha, 10/02/2002, traduzido do “The Independent”). Mais do que aos inimigos, é mesmo uma mensagem ao mundo, respaldada na maior capacidade de destruição já acumulada por uma potência — um Império — ao longo da história.

Para vencer os terroristas e o demonizado “eixo do mal”, os Estados Unidos apresentaram um novo orçamento militar para o ano de 2003. Claro, foi preciso aumentar os gastos com defesa em apenas US$ 48 bilhões. Só para se ter uma idéia, esse pequeno adicional aos cofres do Pentágono representa uma vez e meia o total dos gastos anuais com defesa do Reino Unido ou da França, segundo a mesma matéria do The Independent. Os Estados Unidos são responsáveis por 36% dos gastos mundiais com defesa. Sozinhos eles superam os gastos somados dos 15 países seguidos da lista. Não por acaso é produzido o discurso americano — e assim se respaldam mesmo as patriotadas de Bush —, assim como a construção do unilateralismo estadunidense com a sua pouca disposição em realizar consultas prévias mesmo a seus aliados da Otan. Isso para não falar das humilhações constantes a que submetem a ONU. É o retrato de um mundo construído à imagem e semelhança americana, lastreado na eficácia de sua potência militar.

O orçamento dos Estados Unidos para 2003, enviado ao Congresso pelo seu presidente, prevê gastos totais de US$ 2,13 trilhões, dos quais US$ 379 bilhões apenas com defesa, para um PIB aproximado de US$ 11,5 trilhões: “É um plano para vencer uma guerra que não buscamos, mas uma guerra que estamos determinados a vencer”, declara Bush (Folha, 05/02/2002). A “segurança da pátria” passou a ser a máxima prioridade, juntamente com a retomada do crescimento da economia, como adjutório. Que tipo de relação podemos fazer entre o aumento dos gastos bélicos e o crescimento da economia? É este um expediente saudável para por uma economia capitalista nos eixos? Ou terá efeitos danosos a ponto de aumentar as contradições do capitalismo num médio ou longo prazo?

O que não causa surpresa é que o aumento dos gastos com armamentos nos EUA se dê concomitante com a diminuição dos fundos de capacitação para o trabalho em áreas pobres, cortes em bilhões de dólares em programas de construção de estradas e, pasmem, em redução de 4% dos recursos para proteção ambiental. Tal é a lógica destrutiva deste Modo de Produção, cuja maior potência busca armar-se até os dentes mesmo que às custas da degradação de programas sociais ou de proteção ambiental.

Como se fosse pouco, o tal orçamento prevê ainda um aumento de 12% nos gastos militares para ajudar outros países — um total de US$ 4,1 bilhões, a maior parte do qual se destinará a Israel (US$ 2,1 bilhões), para o ultradireitista Ariel Sharon continuar a sua sanha assassina contra os palestinos da região. Seguidos na lista vem o Egito (US$ 1,3 bilhão) e a Jordânia (US$ 198 milhões). Países que não estavam na lista dos States passarão também a receber “ajuda”, como Índia e Paquistão (US$ 50 milhões, cada), Omã (US$ 20 milhões) e Iêmen (US$ 2 milhões). Entre os países ocidentais, a Colômbia, que até então não recebia ajuda militar formal, passará a ser a campeã das verbas com US$ 98 milhões (dados do “The New York Times”, tradução Folha de São Paulo, 05/02/2002). São os tentáculos do grande polvo que crescem e abraçam mais e mais o planeta. O que os países dão em troca desse tipo de ajuda? Dá para imaginar?

UMA NOVA PAX AMERICANA

Além de todos os movimentos do jogo geopolítico, os Estados Unidos têm aproveitado os acontecimentos do 11 de setembro para lançar uma névoa sobre o que realmente acontece em sua economia. O derrame de dinheiro do Estado, principalmente para a produção de artefatos bélicos, se por um lado aquece ou tenta iniciar um aquecimento de uma economia em recessão, por outro lado não resolve um milímetro sequer o problema do endividamento da economia doméstica americana, além do excesso de estoques das indústrias. Até onde o Estado conseguirá derramar dinheiro improdutivo numa economia de destruição, sem que conseqüências como graves déficits venham atiçar o fogo das contradições do capital? Esse tipo de solução, de caráter temporário, dado o grau de potenciais efeitos danosos nele envolvidos, não conseguem resolver o problema de uma economia que necessita de um mercado consumidor, formado por uma população extremamente endividada e que não alcança dar vazão à capacidade produtiva daquele país. É a constatação de uma superprodução do capitalismo que o Estado americano teima em contornar, ou em minorar seus efeitos, derramando dólares numa economia em crise. Isso diz respeito a todo o mundo, porque a queda da economia americana implica, sem dúvida alguma, na queda da economia mundial.

Em meados de dezembro do último ano, os Estados Unidos, em mais uma medida unilateral, anunciavam a sua disposição em abandonar o Tratado de Antimísseis Balísticos (TAB). O que estava em jogo era o retorno do projeto “Guerra nas Estrelas”, da era Reagan, segundo o qual os EUA construiriam um sistema capaz de aniquilar mísseis que se aproximassem do seu território. O Tratado foi firmado pelos EUA e URSS, em 1972, e tem como pressuposto o fato de que qualquer potência nuclear que atacar outra saberá que também poderá ser destruída, uma vez que não poderá defender-se do armamento nuclear do oponente. Tal medida, se levada a efeito, vai alterar — em prol dos Estados Unidos, é claro —, o equilíbrio geoestratégico dos últimos 30 anos, pelo qual as potências nucleares mantinham-se deliberadamente vulneráveis. Daí o “equilíbrio”, pois qualquer movimento poderia acarretar uma destruição mútua.

O discurso utilizado para justificar medidas como as acima, é ainda o da defesa dos EUA contra “Estados delinqüentes”, como atesta Bush: “Sabemos que os terroristas e algumas pessoas que os apóiam buscam a capacidade de enviar a morte e a destruição à nossa casa por meio de mísseis. Devemos ter a liberdade e a flexibilidade para desenvolver defesas efetivas contra esses ataques” (Folha, 14/12/2001). Ao fechar a edição deste artigo os jornais em todo o mundo, chamavam a atenção para matéria divulgada no jornal “Los Angeles Times”, que citava relatório secreto do Pentágono. Segundo este, os EUA e seu Departamento de Defesa anunciavam a disposição de usar planos de contingência para a utilização de armas nucleares contra sete países — armas menores para uso em situação de batalha. O “eixo do mal”, além de Irã, Iraque e Coréia do Norte, teria como novos integrantes a China, Rússia, Líbia e a Síria (Folha de São Paulo, 10/03/2002).

Em meados do mês de fevereiro, organizações não-governamentais divulgavam estudo segundo o qual 3.767 vítimas civis afegãs tinham morrido entre 7 de outubro e 6 de dezembro. Dessa data até hoje esses números não pararam de crescer. Os últimos ataques americanos à Província afegã de Paktia, no leste do Afeganistão, deixaram 23 mortos, mulheres e crianças entre eles (Folha, 10/03/2002). Nos Estados Unidos, depois de 6 meses dos ataques terroristas, mais de 10 mil prisões foram efetuadas à busca de suspeitos. Destas, apenas uma apontou um suspeito consistente, o francês Zacarias Moussaoui, batizado de “vigésimo seqüestrador”. Para os demais — árabes, imigrantes, negros, muçulmanos americanos, etc. —, abusos e desrespeito estatal. O ápice da humilhação e degradação humana, no entanto, localiza-se no campo de concentração nazi-americano, na base de Guantánamo, em Cuba, onde os Estados Unidos mantém confinados os prisioneiros de guerra, sem ao menos lhes dar tal estatuto, definido pela convenção de Genebra. Existe coisa mais odiosa e repugnante que aquilo?

Se o 11 de setembro demonstrou ao mundo a fragilidade americana, esta passou a ser usada como componente de um discurso ideologizado que busca costurar uma supremacia mundial de amplitude nunca vista na história mundial. Será que tamanha força, que a dimensão dos gastos em armamentos, uma tão agressiva postura diplomática, a prepotência e arrogância americanas, enfim, todo o seu poderio os livra de serem alvos de novos ataques? O caldo em que ferve o terrorismo no mundo realmente esfriou, ou essa postura que leva a mais exclusão, mais miséria, mais massacre, mais humilhação de grandes contingentes populacionais, acirra ainda mais o ânimo de um antiamericanismo que se vê a cada esquina? O que diria disso as populações palestinas massacradas e humilhadas pelos assassinos do governo israelense financiados pelos Estados Unidos? E as populações que agora, nesta nova reordenação mundial podem, seletivamente, sofrer bombardeios de ogivas nucleares de “menor potência?” É essa a caricatura que os States querem moldar de um mundo mais seguro...

Por outro lado, seria ilusório esperar que uma mobilização econômica em larga escala venha acontecer por conta desta atual guerra. Não estamos numa conjuntura como a do final da Segunda Guerra Mundial e a da década de 50, em que boa parte das economias no mundo cresceu no ímpeto de uma reconstrução, na chamada fase de ouro do capitalismo. As mudanças atuais tornam os Estados Unidos mais poderosos, mas cada vez mais odiados. Isso não elimina o núcleo em que é gestado o perigo do terror, ao contrário, aumenta-o em potencial, ao tempo em que se acirram as paranóias internas, refletidas num abusivo “caça às bruxas”, que revive o clima do macarthysmo dos anos 50, sem o contraponto de resolver os problemas de sua economia. São estes os atuais contornos de uma nova Pax Americana imposta ao planeta pela maior potência militar da história.