A HISTÓRIA DO CERCO AO PETRÓLEO

 

... Como acontece à maioria dos homens, que vivem e morrem ingênuos, afirmando e negando por conta alheia, mas as contas pagando como se suas próprias fossem...”.

Na revista oficial do exército americano de nº 72, de março/abril de 1998, o tenente-coronel Lester W Grau, um especialista em estratégia militar, depois de apontar a importância da Ásia Central como fonte de abastecimento de petróleo para os EUA, sugere que Washington estabeleça seu domínio sobre a região por meio de uma ação militar maciça. A justificativa para tanto? O próprio Grau nos dá: “o litoral caspiano guarda 15% das reservas petrolíferas do mundo e metade das reservas de gás natural”.

A citada reserva encontra-se dentre as menos exploradas do planeta pela dificuldade de escoamento dos produtos até algum porto oceânico. A guerra da Rússia contra a Tchetchênia, que riscou literalmente do mapa a capital deste último país, Groznyr, também tem como pano-de-fundo uma possível rota de escoamento. Mas assim como a China e o Irã, esta não é uma alternativa de rota segura para os EUA e seus aliados. Aí entra a necessidade de controlar o território afegão, construindo naquele país capacidade logística para atacar regiões que se encontram muito afastadas dos porta-aviões americanos. Isto feito, os oleodutos e gasodutos poderiam rasgar o solo do Afeganistão, passando pelo Paquistão, até alcançar o oceano Índico.

Assim, com uma mesma ação, garante-se a manutenção e o crescimento dos lucros de dois setores da economia americana: o armamentista e o petrolífero, que, com o seu poder de irradiação, levam consigo outros setores como o da siderurgia, informática, micro-eletrônica e, de quebra, os setores ligados à produção de antibióticos e de vacinas, no rastro da paranóia do antrax.

GUERRA SANTA, SANTA GUERRA!

Seja como for, tudo parece cair como uma luva. Um presidente eleito de forma fraudulenta dispara em popularidade; a economia em recessão é alavancada graças à indústria de guerra; um país estratégico para o controle e escoamento de petróleo é ocupado e poderá, finalmente, transformar-se em uma base militar importante e permanente.

Abstraindo-se a origem e motivações dos ataques ocorridos nos EUA, o Afeganistão estava na mira para ser invadido e controlado. A desculpa poderia ser até mesmo a necessidade de caçar os tatus gigantes que cavavam as cavernas de Tora-Bora.

Está em jogo  o acesso e uso dos recursos petrolíferos pelos EUA e o  mundo ocidental. Este também foi o motivo de outras “guerras santas” contra outros satãs, como a guerra do Yom-Kippur, a “revolução iraniana”, invasão do Kuwait pelo Iraque e a Guerra do Golfo.

SEDE DE ÓLEO

A sanha imperialista em controlar as jazidas de petróleo do Oriente-Médio fica mais clara com a elucidação que Alá deixou do petróleo pelo mundo. Estima-se, com alguma margem de erro, é claro, que um volume total de 2,3 trilhões de barris de petróleo tenha sido a quantidade total das reservas em todos os tempos no Planeta Terra.  Em 150 anos, desde a Revolução Industrial, quase um terço já foi extraído. As reservas atuais são estimadas em 1.750 bilhões de barris, dos quais 1.046 bilhões são considerados provadas e estão distribuídas pelo planeta conforme a tabela abaixo:

TABELA 1 - LOCALIZAÇÃO DAS RESERVAS DE PETRÓLEO[1]

   

LOCAL

% DE RESERVA

ORIENTE-MÉDIO

65,3

AMÉRICA DO NORTE

13,8

AMÉRICA DO SUL E CENTRAL

13,6

ÁFRICA

7,1

RÚSSIA

6,4

ÁSIA

4,2

EUROPA

1,9

 

Os beneficiários pelo uso desta fonte de energia são poucos, se comparados à população atual de 6 bilhões de habitantes do planeta. Do consumo diário de 73,9 milhões de barris, 62,4% é consumido pelos países ricos da OCDE (que inclui o G-7 e mais alguns países ricos) que têm, juntos, um bilhão de habitantes. Os Outros cinco bilhões de habitantes da terra têm acesso aos 37,6% restantes.

Os EUA detêm 2,8% das reservas provadas de petróleo, produzem 9.8% e consomem 25,6% do petróleo mundial. Com  apenas 4,2% da população mundial, este país consome um quarto da produção mundial. As reservas americanas garantem o seu abastecimento interno por apenas 4 anos. Para o mundo, as reservas provadas garantem a produção atual por mais 40 anos.

Confirma-se com tais estatísticas a dependência do abastecimento externo de petróleo por parte do EUA e dos demais países da OCDE, e a necessidade por parte desses de manterem a “qualquer custo” o acesso permanente e estável em termos de preços, quantidade e qualidade desse insumo vital. Não é por acaso que parte substancial do orçamento militar americano de US$ 300 bi (antes do orçamento de 2003), está dedicada a garantir a estabilidade do abastecimento de petróleo.

Além do aspecto estratégico da dependência dos países capitalistas a este insumo, existe o “negócio petróleo” que movimenta US$ 700 bilhões anualmente e parte substancial dessa quantia é apropriada por empresas oligopolistas situadas nos países capitalistas centrais. Como disse Ildo Sauer, na Caros Amigos nº 55, “o petróleo passou a ser controlado politicamente por um sistema de poder que funde o papel do Estado — através de seus mecanismos e instrumentos de coação política e militar — com os interesses dos oligopólios, legitimados por meio de consenso forçado, forjados na mídia globalizada. O preço do petróleo é eminentemente político: representa a síntese momentânea da correlação de forças — relações inerentes ao mercado cartelizado, hegemonia militar, estratégias e pressões corporativas – dos interesses da apropriação da sua renda e de seus benefícios pelos governos e grupos econômicos”.

 1 Fonte: Revista Caros Amigos nº 55 – Ildo Luís Sauer



[1] Fonte: Revista Caros Amigos nº 55 – Ildo Luís Sauer